Revoluçao tranquila

 

Sergio queria revolucionar o mundo. E desde pequeno tinha personalidade para isso. Adorava perguntar “porque?”, era curioso, nao queria comer legumes e verduras de jeito nenhum, fazia birra, chorava, esperneava, berrava quando queria alguma coisa, fazia besteiras intencionais so para chamar atençao, odiava escutar  “nao” mesmo quando entendia a resposta do “porque?”. Quando adolescente queria fazer tudo ao contrario, contestava seus Pais, batia de frente com qualquer pessoa, discutia com professores, nunca seguiu muito bem as regras da escola, mudou o corte de cabelo diversas vezes, usava roupas e girias esquisitas, mentia para os pais para buscar um pouco de mais de liberdade, experimentou cigarro, maconha, bebidas alcoolicas. Para ele, seus idolos eram todos contestadores também, buscou na musica, nos gibis, nos filmes, nos livros, um aliado para expressar seu descontentamento, raiva, angustia, alegria. Começou a imaginar e a sonhar. Começou até mesmo a contestar a relaçao de seus pais, a entrar no meio das discussoes, a tomar partido, viu seu Pai cair como heroi, odiou estar ali naquela familia. Nao entendia muito bem o que era politica mas foi na Paulista pedir o impeachment do Collor, pintou a cara, gritou, estava com os amigos, era divertido, novo, revigorante. Mudou de idéias varias vezes quanto ao seu futuro, achava cedo demais ter de escolher uma profissao com 17 anos. No fundo no fundo, queria ser varias coisas ao mesmo tempo, queria ser aquilo que ele ainda nao tinha descoberto. Mas foi em frente como todo mundo, ao menos nao seguiu a carreira da familia, nao queria, nao gostava, seguiu suas vontades, suas escolhas, por mais que sempre mais ou menos guiadas. Na faculdade o que menos queria era estudar, queria era tocar o puteiro, beber, fumar, viajar, trepar. Começou a ter idéias politicas fortes, questionava tudo com argumentos, o que o mundo é finalmente começava a ficar mais claro para ele. Leu livros, viu muitos filmes, escutou muita musica, escutou muito as outras pessoas, começou a dar valor para as idéias dos mais velhos, viu a queda da maioria de seus herois e por fim, entendeu um pouco mais seu Pai. Agora ele tinha herois mais verdadeiros, grandes revolucionarios, em todos campos, na politica, na arte, no social. Eram pessoas que sabia que nao o decepcionariam, buscava herois verdadeiros. Na falta de alguns, escolhia aqueles que tinham morrido jovens e com a bandeira levantada. Arrumou uma namorada, viajou pra praia, pro campo, pra fora da cidade, filosofava aos amigos que o presente era o que importava. E seguia seu ideal na pratica, sabia da necessidade do dinheiro mas nao se importava muito com ele, se virava, quando viajava dormia em qualquer lugar, rachava gasolina com os amigos, comia o que tinha na frente, o importante era estar la, era viver. Mas a verdadeira revoluçao ainda estava por vir. Saiu da faculdade e arranjou um emprego. No inicio lutou contra, pulou de galho em galho, nao queria seguir a metrica impotente da vida : trabalhar, casar, ter filhos, comprar um casa, fazer uma previdencia privada, envelhecer e morrer. Mas a necessidade do dinheiro de repente começou a fazer mais sentido. Queria viajar, rodar o mundo, comprar uma moto e tudo isso, so com dinheiro. O trabalho virou rotina, tinha seus amigos na empresa, nao era tao dificil assim trabalhar, viu que o segredo era uns bons tapinhas nas costas, elogios, fazer bem o maximo possivel que seu cargo pedia e fazer um pouco mais para ser visto. Opinava em reunioes, realmente participava, discutia assuntos do trabalho no almoço, levava trabalho para casa e para o fim de semana, foi contaminado pela necessidade de uma pos-graduaçao (ele se esqueceu de perguntar “porque?”). Fez amigos por pura necessidade e nao pelo coraçao, por isso até abandonou muitos daqueles que realmente tinha afinidade. Aumentou sua lista de networking, fazia politica, e quanto mais aumentava de cargo, mais usava o poder, a sindrome do pequeno poder. Comprou um carro, jogava uma porcentagem do salario numa conta investimento, fazia planilhas para determinar quanto podia gastar aqui ou ali, via um futuro promissor, planejado, queria tranquilidade, queria segurança. Seus novos herois, mais uma vez morreram, nao tinham mais sentido. Escolheu outros, herois que souberam enriquecer, herois que souberam poupar, envelhecer com dignidade, e estes tinham a rodo, em livros, na TV, na sua empresa. Repetia os jargoes de seus herois, tinha o mesmo corte de cabelo ha mais de 5 anos agora. Namorou, casou. Juntos, compraram uma casa. Pediu uma carta de crédito no banco, se endividou, mas ia sair desta, tinha um bom trabalho e estava trabalhando como um louco. E foi recompensado, afinal estava jogando o jogo. Foi promovido e com méritos. O salario engordou, ele e a esposa um pouco também. A filosofia “a vida é agora ”, virou slogan do seu cartao de crédito. Adoravam sair para comer em bons restaurantes, gastavam com pequenos luxos, pegaram carona na moda do vinho, fizeram um curso de um fim de semana à 500 $ e sairam discutindo sobre uvas, como grandes entendedores. Depois disso, nao compravam mais vinho a menos de 20 $. Fizeram até uma adega particular em casa e adoravam mostrar aos amigos que vinham jantar em casa. Viajavam uma vez por ano, uma bela viagem sempre. Um lugar exotico, diferente, que ninguem ainda tinha ido, procuravam sempre isso. E da janela do seu hotel 5 estrelas, Sérgio olhava para fora e suspirava de felicidade. Teve um filho, deu tudo de melhor para ele. Comprou uma Harley Davidson, mandou o filho pra Disney. Nao suportava a violencia da cidade, achava que tudo estava muito perigoso, queria se afastar da muvuca, criou sua bolha particular em um condominio fechado à alguns kilometros da capital. Protestos, passeatas e greves incomodavam energicamente Sérgio. Queria paz, tranquilidade e tinham pessoas la fora que teimavam em bagunçar o mundo, que nao queriam viver segundo as regras. Para ele, eram pessoas que faziam birra, choravam, esperneavam, berravam, so para chamar atençao, que odiavam escutar  “nao”, que perguntavam “porque ?” demais. Envelheceu assim, com tudo planejado. Sérgio queria revolucionar o mundo mas foi o mundo quem revolucionou Sérgio. E ele morreu, sem mesmo perceber. Uma revoluçao tranquila. Como sempre.

5 Responses to “Revoluçao tranquila”

  1. Não às revoluções tranquilas. É melhor fazer barulho. Sempre!

  2. Rodrigo Vidal Ferraz Says:

    guga,

    vc nem mudou nada desse texto, certo?
    Acho que ficou brilhante assim, como um escarro, saiu e pronto

    Vc nao escreveu esse texto, você o expeliu!

    Parabens, vai ter muita gente incomodada… eheheheh

  3. luciana zacchi Says:

    confesso que eu to incomodada!

  4. marcelo alves Says:

    e quem nao estaria? …todos gritamos um dia e hoje estamos mais caladinhos, a merda eh que ainda grito de vez em quando …e pela ordem mundial eu nao poderia… mas fuck off!!!😉

  5. …antes de morrer, ele ainda teve tempo de balbuciar: “Serra é do bem…”

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