Motta (Uma história de John The Smoking Gun)

Motta era um bom parceiro de trabalho, tinha um jeito seco e rápido muito parecido com o meu. Só fazia trabalhos em dupla e eu fui seu escolhido nos últimos 30 anos. Saímos do Star 69 com o dossiê e sentamos num café da Rua Augusta para acertar alguns detalhes. “Com qual você quer ficar?” Respondi que não tinha preferência, que escolher para mim era um jeito de se apegar. “Fazemos assim, você fica com o garoto e eu com a bonitinha. Que tal?”. Assenti um pouco contrariado pois imaginava outras intenções ali, mas um sujeito como ele não chegaria a nenhum limite, só o frenesi que sentia de estar a sós com uma mulher lhe fazia gozar nas calças. Era um puto velho, bem mais velho do que eu e um puto velho não vacila. “Me parece um trabalho simples, os dois se hospedam no mesmo hotel e em quartos separados. Metem pela tarde inteira no quarto dele e antes das 18h já estão de volta aos seus quartos para lavarem o cheiro do adultério no chuveiro e jogarem a culpa ralo abaixo. Os dois saem sempre e pontualmente as 19h”. Motta concordou comigo e olhou para o relógio “15h agora John, devem estar se acabando de meter ainda. Que horas lá?” “Às 17h em ponto no lobby do motel, subimos cada um com sua puta em quartos separados no andar dos alvos. O cara sempre se hospeda no 510 e ela, no 610. Um andar de diferença, mesma saída da varanda. Acabou, mete a cara pra fora da janela e escancara o seu sinal. Te encontro logo depois no Star 69, tenho um novo teste cego para você amigo.”

Liguei para Sofia e acertei os detalhes, costumo pagar 300 pela parte teatral e o resto é sempre gorjeta. Voltei pra casa, almocei e acertei outros trabalhos para a semana. Às 16h40, peguei Sofia no flat dela e pontualmente lá estava Motta e sua loira. Ele batia nas casa dos 60, ela nos 40 e vestida como dona casa pareciam um casal adúltero normal. Eu odiava disfarces e Sofia sempre parecia uma puta, de taieur ou de mini-saia. Motta e a loira subiram primeiro, pro 6º andar, e nós fomos em seguida pro 5º. “Quer brincar antes de apertar o gatilho matador?” Não resisti e pedi uma chupeta. As 18h30, vesti minhas roupas, paguei Sofia e combinei de ela ficar ali naquele quarto, imutável e calada, até o dia amanhecer. A polícia já tinha a ficha de puta das duas registrada e nós éramos apenas clientes que no meio da tarde voltamos para casa e para nossas famílias, clientes anônimos, fantasmas. Entrei no 510 sorrateiramente e imaginei Motta fazendo o mesmo, na minha cabeça imaginava uma sincronidade perfeita, como dois dançarinos da morte, bobeiras que assimilei de filmes B americanos. O rapaz estava de toalhas, agachado em frente à cama e colocando as meias, quando sentiu minha presença. Virou e esboçou uma reação, mas o cano da arma já estava encostado na testa. “Tarde demais”, soltei e apertei o gatilho. O corpo despencou na cama e a toalha se abriu mostrando o longo pênis esfolado e avermelhado, tinha morrido pelo menos satisfeito o filho da puta. Acendi um cigarro na varanda e aguardei alguns minutos, mas o sinal não vinha. Foi então que a bonitinha me aparece gritando pelada e maluca no estacionamento, correndo em zigue-zague. Desci pelas escadas de emergência, passei pela recepção já abandonada e sai em direção à rua.

Já se passavam 40 minutos e nada do Motta aparecer. Minha gastrite dava pontadas violentas de tanto nervosismo, montei e remontei inúmeros cenários na minha cabeça para o que havia acontecido e quanto mais passava o tempo mais certeza eu tinha que Motta estava morto.
“Como morto John?”, o barman viu Motta escapar de tantas histórias que não acreditava num final assim tão infeliz para o puto velho. “Morto. Não sei como aconteceu, mas Motta está morto”. “E como tem tanta certeza?” “O cara nunca deixou de dar o sinal dele em 30 anos de trabalho juntos, você conhece a lenda, não? Se alguma coisa falhasse e eu conto nos dedos, mesmo assim vinha o sinal.

Motta era um bebedor nato desde os 11 anos e se tornou com o tempo um mestre cervejeiro. Era o rei do teste cego, reconhecia qualquer marca de cerveja, nacional ou importada. Não sabia dizer se era Pilsen, Stout, Weiss, só sabia a marca. Se nunca antes havia tomado uma Guiness, por exemplo, no próximo teste cego já dizia de cara sem hesitar, impressionante. E um dia ele contou o seu segredo. Motta tinha uma maneira peculiar de descobrir a marca, não se atinha ao lúpulo, a água, a textura e outras frescuras tolas, Motta reconhecia através de um simples arroto interno após cada gole. Para ele, cada marca tinha um sabor de arroto, dizia que uma ou outra podiam ser confundidas de vez em quando, mas raramente errava. Contestei dizendo que o arroto interno era um método falho, pois o sabor do arroto seria uma combinação do gás que a cerveja produzia com o que mais tinha dentro do estômago. Portanto, se estivesse bebendo Brahma pela primeira vez com calabreza, o arroto seria diferente da Brahma com frango a passarinho. ‘Você descobriu o verdadeiro segredo John. Mas não se preocupe, eu só tomo cerveja comendo amendoim”. O arroto sempre foi seu fiel companheiro em tudo. Motta era uma figura rara e divertida. Ricardo “Canhão” Motta, matador profissional falecido que ganhou o apelido do meio pelos arrotos vorazes e escancarados que soltava sempre depois de apertar o gatilho. Não era sinônimo de missão cumprida, era sinal de que ele estava vivo porra!

One Response to “Motta (Uma história de John The Smoking Gun)”

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: