Pombo Correio.

 Quando eu começei a trabalhar aqui em Montreal, a curiosidade a respeito do Brasil veio logo a tona no primeiro dia. As pessoas nao paravam de me fazer perguntas (fazem até hoje) sobre o meu pais, é engraçado saber que aqui você vem de um lugar extremamente exotico para as outras pessoas, quando pra mim é tudo a mesma merda.

Bom, aqui tem gente de todo lugar, Canada, França, Marrocos, Ilhas Mauricio, Bélgica, Estados Unidos e o que mais me impressiona é que o tipo de pergunta que as pessoas fazem sobre o Brasil nao importa do lugar de onde elas veem ou do tipo de conhecimento que tem. As perguntas sao sempre a respeito do carnaval, da violencia, da putaria, do cambalacho politico e sua corrupçao, nao necessariamente nesta ordem.

 

E olha que eu trabalho numa empresa que presta serviços para ONGs, é todo mundo « antenado », no almoço sai até briga por ideologias politicas (e alimenticias. Porque agora comer carne é feio e no meio de ONGs, a lei nao é mais ser vegetariano, agora é BIO ! Calma, eu continuo trazendo minha coxa de frango e minha cerne moida.). Mas nao sei se posso culpa-los, pensando bem. Sabe porque ? Ontem mesmo, a redatora veio me procurar com uma matéria de um jornal que falava do Brasil. Ela ja veio rindo. Era sobre uma prisao em Sorocaba, os presos haviam « contratado » pombos correios para levar celulares à prisao. Matéria gigante com direito a foto bonita do pombo gordo carregando a encomenda. É meus amigos, é a noticia que chega e tem de chegar mesmo. O problema é que so chega este tipo de noticia, aquela velha historia. E nao importa o nosso esforço, a curiosidade é sobre os assuntos que eles nao tem aqui (nao tem muito) e que a gente odeia discutir, porque é exotico, lembra ? E a gente mesmo so exporta isso, qual o filme brasileiro mais conhecido no mundo dos ultimos anos ? Cidade de Deus. E fala do que? Respondido.

 

Ah, so pra complementar. Cuba é do lado aqui. Um dos destinos mais procurados. Quando o cara aqui vai pra Cuba, é pra ir no all-included, encher o rabo de comida e bebida, sem parar, em Varadero, Cayo Coco e outros paraisos. Havana, Santa Clara, Santiago, Cienfuegos e outras dezenas de cidades com milhares de historia e cultura sao para aventureiros e corajosos. Apesar de hoje entender a necessidade do sol aqui depois de um inverno branco e gelado, isso me fez entender um pouco mais o pouco que sabem sobre o Brasil.

 

Bom, agora vou almoçar e encontrar o pessoal na cozinha. Vou encher o papo de encomendas e soltar o que eles querem ouvir, como aquele pombo correio.

5 Responses to “Pombo Correio.”

  1. Gu, você escreve: “As perguntas sao sempre a respeito do carnaval, da violencia, da putaria, do cambalacho politico e sua corrupçao, nao necessariamente nesta ordem.”

    Entendo o que você quer dizer mas, quais perguntas você gostaria, preferiria? São interrogações normais, pras pessoas como eu, que não sabem nada sobre seu pais. E eu me digo: ao menos, esse tipo de perguntas permite uma discussão, ou uma polémica, não? O problema não é as perguntas (porque as perguntas, mesmo as mais burras, sempre manda uma explicação), o problema é quando as pessoas formam uma opinião unilateral depois ter assistido (hum, pas súr du portugais ici…) aos filmes como Cidade de Deus ou Tropa de Elite. Mas, a gente não pode acusar os directores de querer “exportar” uma violência que não existe. Ela existe. Eles só querem de falar dessa violência pra condenar-lhe.
    Concordo com vocé que os “clichés” são chatos, mas, de verdade, o que é um pais senão sua política, suas grandes manifestações culturais, etc?
    Então, o que é o Brasil senão os problemas sociais, o futebol, o carnaval, o catolicismo, a música, a amazônia. Muitos “clichés”, eu sei, mas muitos “clichés” que abrem o caminho pras discussões…

    Falou.
    Danny Boy.

  2. marcelo alves Says:

    entendo o que o guga quer dizer… incomoda e acabou, e incomoda pois conhecemos bem os problemas e nao vemos uma solucao no horizonte.

    mas o brasil nao é só carnaval, futebol, samba, violencia e problemas politicos danny, o brasil acalenta, acolhe, tem esperança, é lindo, o brasil encanta e desencanta, vc pode ser rei e pode ser plebeu, isso vai depender unicamente de vc e não do governo.

    não há no mundo tanta cultura acumulada misturada e desdenhada quanto aqui, somos sujos, limpos, belos, feios, amados e odiados, somos unicos. somos gigantes. somos continentais. somos egoistas, mesquinhos e medrosos. somos a sintese dos problemas da humanidade… mas não nos explodimos, não invadimos, não destruimos e não intervimos.

    tentei deixar um post que mostrasse o paradoxo que é o brasil e o sentimento dicotomico que temos por ele… nao quis ser arrogante ou algo assim… abraços.

    marcelo

    @marceolives no twitter

  3. Valeu Marcelo,
    mas eu penso que quase todas as sociedades poderiam ser inclusas na sua descrição. Especialmente se você tem sandade dela… :))

    Por exemplo, o Québec não é apenas os problemas daqui em Montréal (problemas com a língua, com a imigração, etc.), mesmo se o resto do mondo acredita que sim. Fico sempre como você e Guga quando qualquer pessoa (sim, sim, os brasileiros também) me pergunta o que são minhas disputas com os ingleses: fico incomodado e um pouco “boca-aberta”, porque a resposta está muito complicada, e não há uma solução fácil. Mas aqui também, ouço sempre as mesmas perguntas e as mesmas dúvidas. O que quis dizer é que as interogações as vezes são burras, mas não as respostas que nós fazemos, idealmente…

    (desculpe pelo meu português: estudando…)

    Abraços,
    Daniel

  4. marcelo alves Says:

    isso ai daniel, estamos aqui para trocar as ideias.. mas diz ai, de onde vc é? eu sou do brasil e moro por aqui… não estou ai não… rsrs…

    marcelo alves
    @marceolives no twitter

  5. Guga, você resumiu uma coisa que todo brasileiro que “põe o pé para fora de casa” sente. Contudo, devo concordar com o Daniel sobre os cliches. Uma coisa eu concordo 100% com meu “pequeno gafanhoto” (hehe) é que podemos ter que ouvir muita coisa e explicar o que não queremos sobre o Brasil, mas ainda assim PODEMOS falar sobre o BR. A imagem pela qual somos conhecidos é essa… e para nós, dizer que o BR não é só isso é quebrar paradigmas que toda e qualquer cultura quer quebrar. Se falam sobre o que temos de carnaval ou futebol ou o que quer que seja é porque no mínimo sabem alguma coisa sobre nós. Existem paradigmas em todas as culturas a serem quebrados, exemplos: “todos os franceses são snobs”… não! “todo estadunidense é obeso”…. não, “todo alemão é fechado”… não! “todo montrealais é louco”… não! sem comentar outros exemplos piores.

    Como já foi dito, até mesmo em Montréal o pessoal (daqui)não agüenta mais ter que falar sobre à relação franco-anglófona. Isso tudo é o resultado de uma dialética sócio-cultural = o teu é diferente do meu!!

    é isso….

    Ah, um PS… je suis fière de mon étudiant! Bravo Dan!

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