COM ALGO NOS DENTES

COM ALGO NOS DENTES
(Fabricio Carpinejar)

Sujeira nos dentes me põe em alerta.

 

Reunião-almoço é um momento em que ninguém deixa uma boa impressão. Esqueça. Já estive fechando um negócio com uma casquinha de feijão nos dentes. Não me avisaram. Não havia como escová-los, a comida cheirava saborosa no prato. De pé, na cabeceira da mesa, eu escorria palavras higiênicas, fortes, límpidas enquanto a dentição revelava justamente o contrário.

 

Quantos olharam ao lado para não enfrentar a oficina mecânica? Quantos garfos histéricos diante da minha falta de notícias? Quantos perderam a gula com minha aparência junina?

 

Um maldito pretume na apertada fresta dianteira. Um poço de petróleo subindo de minha timidez, jorrando descuido profissional.

 

Uma nesga de feijão arrebenta uma personalidade. Para detestar alguém, basta a capinha negra e desmiolada no fundo branco. Concluímos que seu dono é um desleixado, que deveria usar um avental dentro da boca. Ele não será promovido, nunca. 

 

Não houve uma alma samaritana em minha equipe, muito menos na comitiva do cliente a comentar que um grão poluiu meu sorriso. Saudade da franqueza suicida de minha mãe. Custava levantar um guardanapo e indicar o canto dos lábios? Eu entenderia o mínimo sinal. Uma careta e veria que algo escapou do controle. Mas o medo de constranger humilha ainda mais. E fui sodomizado pelo silêncio. 

 

Depois de recitar uma hora a estratégia para um anunciante, descobri no banheiro o penduricalho labial, o piercing do apetite, a argola do azar. E qualquer descrição ousa melhorar a sobra e não reduz o impacto de sua chegada. Enforcava os dentes com o fio dental. Subi até na cadeira para gerar um efeito mais realista. 

 

A partir daquele vexame, firmei pacto de sangue: sempre avisar quem está com os dentes sujos. Seria um retrovisor de restaurante, inimigo declara do da couve, da farofa, dos temperos, das digestões rápidas e desassistidas. Apontaria fulminante e inquisidor: “Está aí, limpa!” Falaria com ou sem educação. Para me vingar da memória e antecipar o coitado de uma tarde de fofocas e brincadeiras. Um homem fica mais tranqüilo quando desvenda sua vocação. 

 

Encontrei minha namorada após o café da manhã. Seu riso é um lençol balançando em varal. Dá duas cambalhotas no vento sem renunciar a realeza do tecido. É uma alegria pousando com os dois pés de ginasta. Não tropeça mesmo com todas as acrobacias do céu do rosto. 

 

Ela veio me beijar, assustei seu avanço como um guarda de trânsito. Os caninos apresentavam uma pontinha escura. Um traço absurdamente irritante, complicado de apagar no editor de imagem.

 

– Está com uma coisinha entre os dentes.

Ela suspirou:

– São tâmaras.

Ah…Tâmaras, pode. É muito chique.

Ainda estou a beijando.

4 Responses to “COM ALGO NOS DENTES”

  1. Luciana Zacchi Says:

    “Quantos perderam a gula com minha aparência junina?” ahahahaha

  2. Luciana Zacchi Says:

    “Depois de recitar uma hora a estratégia para um anunciante, descobri no banheiro o penduricalho labial, o piercing do apetite, a argola do azar.”
    ahahahahah

  3. Luciana Zacchi Says:

    muito bom!

  4. Rodrigo Vidal Ferraz Says:

    Excelente…

    Minha parte preferida: “Saudade da franqueza suicida de minha mãe.”
    ahahahaha

    Suicida é boa…

    Agora é a Amanda que da umas dessas, so que as vezes elas esquece e me esculacha na frente dos outros, tipo: “noooossa, olha suas unhas” ou, “noooossa, vai tomar banho, olha o seu cabelo!”

    magoa, as vezes, mas é a franqueza suicida que faltou pro maluco ai do texto…

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