Bolo de mundo

PrestigioEu so queria comer um bolo. Moro sozinho, mae falecida, tias distantes, nao tenho ninguém proximo de mim que saiba fazer um bom bolo, gordo, massa caseira. Bolo de mae. Bolo que nao regula cobertura e recheio, feito com o simples proposito de agradar, alimentar, saciar, adoçar esta vida azeda. Bolo é foda. É um universo incrivel de possiveis misturas, fruta com fruta, fruta com chocolate, preto ou branco, creme, doce de leite, café, nutella, com pedaços de chocolate, com chocolate ralado, coco, leite condensado, frutas secas, nozes, amendoas, amendoim, de nomes gostosos, Floresta Negra, Opera, Bem-Casado, Nega Maluca, Prestigio, Tia Maria, Baba de Moça, Brigadeiro, Crocante, Mesclado, Mousse.

 

Sai de casa determinado a comer uma farta fatia. Passei por diversos cafés com seus bolos miados, magros, copias baratas, recheios economicos, massas de caixinha, misturas prontas, bolos mais estéticos do que gostosos, feitos com açucar mascavo, adoçante, sem ovos, farinha integral, pra nao assustar o cliente que agora olha bolo como inimigo, até o bolo foi remodelado para atender a paranoia delirante do ser humano saudavel. Bolos light, sem gosto, sem manteiga, sem gordura, com muita fibra. Bolos inodoros, insiptos e incolores, feitos para lembrar e nao para saciar. Eu queria um bolo de verdade, alto, recheado, daqueles arranha-céu da boca, de precisar de um copo d’agua logo depois de tanto que o açucar seca o beiço. Aonde foram parar as antigas docerias ? E quase que frustado na minha busca, quase que apelando para um bolo seco de fuba de porta de metrô, o famoso tijolo, me deparei com uma daquelas docerias antigas de bairro. Me lembrei dela, de quando meu Pai me levava la de fim de semana pra morder um doce e acalmar a hiperatividade, lembro que a vitrine do balcao tinha quindim, tortinhas de morangos, bomba, sonho, tudo que hoje foi confinado às padarias. Entrei e pisei em azulejo branco, ambiente clean, luz branca forte, mesinhas da Tock & Stock moderninhas. Nao vi cajuzinho, olho de sogra, so potinhos delicados preenchidos com uma colher safada de brigadeiro ou bicho de pé, o conhecido doce de colher. Mas nem me importei com isso e fui logo à procura dos bolos. E la estavam eles. Ufa ! Ainda altos e obesos. Ja com a boca salivando de desejo, perguntei o preço. R$ 9.50 a fatia. O quê ? Vai tomar no meio do olho do cu, gritei dentro de mim. Mas senhora, porque este preço ? É o preço de mercado. Entao, eu amaldiçoei a Amor aos Pedaços. E tive de entender, era verdade, foi-se o tempo que o bolo custava o preço que deveria custar, que tudo alias tinha o preço que deveria ter, o capitalismo selvagem mordeu até o bolo, estamos na era em que tudo tem que lucrar absurdamente, que tudo é superestimado. E tem gente que paga a fatia, pede um café e fica falando que o mundo ta uma merda, hipocrisia maldita. Ainda bem que a cereja do bolo, aquela que era tao valorizada, continua barata no supermercado. Saudade do tempo que a gente começava pelo bolo e terminava na cereja.

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: