Carpintaria

 

Mario só tinha a Jorge e Jorge só tinha a Mario. Órfãos de pai e mãe com oito, depois criados pelo avô, que morreu quando tinham doze, fato que os levou a morar com a tia, ultima sobrevivente da família que não sobreviveu por muito tempo. Tinham 16 e já não tinham mais ninguém. Eram velhos demais para assistência social, mas novos demais para o mundo, mesmo assim tiveram de amadurecer antes do tempo, se viraram sozinhos. Terminaram o colégio trabalhando, cursaram um técnico de carpintaria e abriram uma pequena loja juntos. Não casaram, não tiveram filhos, e ainda assim nunca tinham dinheiro. O pouco que entrava saia logo em seguida para pagar a loja, que era mais do banco que deles mesmos. Não eram excelentes no que faziam, mas faziam bem, o problema era que não tinham a libido social, eram introspectivos demais para correr atrás, não conseguiam muitos contatos, trabalho sempre faltava, eram daqueles que esperavam ouro cair do céu. Ouro nunca caiu, mas um tijolo sim, e na cabeça de Jorge. Mario levou o irmão para o hospital, mas o tijolo já o tinha levado antes para o céu. Mario chorou, e antes mesmo que pudesse tudo entender – se for possível entender a morte – foi perguntado como gostaria de proceder com o corpo. Não sei, respondeu. O médico então, foi logo chamar o agente do hospital que tratava disso. Mario tinha três opções: enterrar, cremar ou dar o corpo para estudos. Não teve tempo de perguntar qual opção o irmão gostaria, mas o conhecia muito bem para responder a primeira. E a primeira, acreditem, custava o olho da cara. Limpeza e preparação do corpo, manuseio, transporte, cemitério, flores e o que mais empurrassem no tratamento da mercadoria. Mario não tinha dinheiro para isso. E o banco não lhe daria mais empréstimos, imaginou até o gerente dando risadas de sua cara por não ter feito aquele maldito seguro de vida. Imprevistos, como a vida. Pediu um tempo para pensar e voltou para casa, pensou no que Jorge faria se tivesse em seu lugar, preferia que Jorge estivesse em seu lugar. Virou a noite, fez um caixão todo bonito e o trouxe logo de manha ao hospital. Botou Jorge lá dentro e disse a todos que aquele era assunto dele e que ele ia tratar de tudo sozinho. Mario agora tinha seu irmão num caixão sem lugar para enterrar. O buraco ja estava feito, em sua alma. No meio do caminho de volta para casa e no meio de sua indecisao, parou o carro em frente a uma construção, a mesma onde o tijolo havia caído. E ficou olhando para o céu esperando que outro caísse. E assim continuou a fazer todos o dias. Decidiu finalmente que so enterraria o irmao junto com ele. Era o unico jeito de tapar o buraco.

 

Nota : meu amigo Daniel Grenier meu deu um dos mais belos presentes que já recebi. A tradução deste texto em francês. Veja aqui no blog dele.

2 Responses to “Carpintaria”

  1. De nada, rapaz! Foi um real prazer. Acho que vc é um escritor. A gente tem que falar sobre isso no nosso próximo encontro. Não sei por que, na verdade, a gente nunca falou desse talento seu.

  2. […] Carpintaria […]

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