Camila

 

Camila era romântica e ingênua, mas nao era burra. Sabia das misérias e das tristezas do mundo, mas preferia tapar os ouvidos para que tudo continuasse dentro dos seus muros. No fundo, sabia que ela mesmo era triste e infeliz mas nao queria espalhar-se a noticia. Quando pequena, se entorpecia de bonecas, brinquedos, gibis, desenhos animados e programas infantis. Quando adolescente, papéis de carta, livros de banca de jornal sobre principes e princesas, comédias românticas. Ja adulta, novelas, filmes de final feliz, revistas de fofocas, religiao. Evitava a todo custo o inicio do Jornal Nacional com suas guerras, conflitos e corrupçoes, preferia os minutos finais com gols do Brasileirao e noticias de celebridades. Foi boa aluna na escola e parou por ai. Nunca quis mudar o mundo e portanto faculdade nao era para ela. Como profissao, escolheu ser costureira como a mae. Nao almejava o sucesso, a competiçao, nao era ambiciosa. Preferia colocar a mao na massa e fazer as barras. Casou-se para trilhar a métrica dos ordinarios e nao por amor, mas amor nao faltou para servir seu marido. Nunca o questionou, evitava reparar nos seus defeitos, nunca reclamou de suas manias, de seus horarios, de suas vontades, fazia muito bem o arroz e feijao da felicidade. So pediu um filho mas teve dois, o que ja compensava em dobro toda a sua devoçao ao marido. Educou os meninos do melhor jeito, levantava antes deles irem a escola, preparava o café, ja começava o almoço, limpava a casa, costurava, preparava o jantar, tomava um banho e esperava todos à mesa. Sentava no sofa com a familia toda e ficava ali no seu cantinho, de expectadora, feliz em ver seus filhos brincando e crescendo. Escutava o marido falar mal do trabalho, mas nao dava conselhos, dava força. Antes de dormir, ficava olhando o mundo de sua janela. Rezava, fazia amor com o marido quando a ele convinha e colocava o despertador para as 6h da manha seguinte. E la ia ela novamente. Domingo, expurgava tudo o que acumulou de pensamentos ruins na missa. Tinha poucas amigas e nao tinha muitas porque simplesmente nao fofocava, nao dava opnioes nao se inxeria na vida dos outros, falem mal mas nao falem de mim.

 

Um dia Camila acordou triste. Nao sabia o que fazer. Levantou-se mais tarde do que todos esperavam, faltou café na mesa. Mamae esta doente, disse o Pai. Passou o dia angustiada e precopucada sem saber com o que. Foi até a igreja e rezou de joelhos pedindo sua vida de volta. Ficou constrangida quando viu lagrimas caindo, tentou enxuga-las em vao pois caiam como rios. Quando sua vizinha colocou a mao em seu ombro e perguntou o que havia, Camila entrou em pânico. Haviam pulado o muro ou o muro havia desabado. E assim, desabada, saiu correndo pelas ruas. Olhava para as pessoas, para o mundo com o terror dos olhos desvirginados. E tudo aquilo que ela sempre evitou, entrou assim de sopetao, como um soco, uma porrada, uma tapa. A felicidade era um fardo. Xingou o marido como se estivesse possuida, amaldiçuou sua vida, arrependeu-se, fez suposiçoes, lembrou de seus sonhos, sentiu as rugas nos olhos, sentiu os calos da mao. E ali ajoelhada na calçada, abaixou sua cabeça e colocou suas maos emcima,  a realidade interpretando a dor da vida.  Sentiu seu braço ser puxado, mas queriam so a bolsa. Puxou de volta, ja nao tinha mais nada a perder. E entao sentiu algo nas costas. Viu sangue. E morreu.

 

Mais textos da série Relatos sobre a Morte:

Carpintaria

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