Aquela coisa de casamento

Aquela coisa de casamento

por Antonio Prata, Seção: Crônica do Metrópole 15:59:42.

 

Publicado na Revista Espresso

 

Quando você vai ver, seu nome está numa mesa, com uns amigos do pai da noiva que você nunca viu antes: um general reformado, um ex-diplomata que serviu muitos anos no Laos, a esposa do diplomata e um casal de engenheiros químicos que trabalham na indústria farmacêutica.

 

Felizmente, todos estavam animados, empenhados em criar um ambiente agradável e não demorou para encontramos um terreno comum: viagens. Nem dois minutos depois de sentarmos, estávamos todos concordando, entusiasticamente, com a afirmação do general reformado – Eurico, era seu nome – de que poucas coisas evoluíram tanto, nos últimos anos, como as malas. Eurico, que havia servido na aeronáutica, enumerou o que, a seu ver, foram a três grandes revoluções, nessa área: o surgimento das rodinhas, nos anos sessenta, a mudança das rodinhas da parte de baixo (o lado maior do retângulo) para a lateral, nos anos noventa e, recentemente, a introdução das rodinhas que giram. A engenheira química disse que, para ela, o aparecimento dessas malas duras, metálicas, era tão importante quanto as rodinhas, mas diante do repúdio geral dos comensais, foi forçada a recuar e admitir que a mala dura, embora importante, era um advento menor na história das bagage ns.

 

“A história de evolução das malas é a história da evolução da democracia”, disse o ex-diplomata e, diante de nossos olhares curiosos, deu uma brilhante palestra sobre o assunto, que nos levou da salada à sobremesa, sem que percebêssemos a passagem do tempo. Há cem anos, disse ele, viagem era programa de gente muito rica, que não carregava a própria bagagem. Tinham serviçais pra isso, então levavam tudo em baús ou até caixotes de madeira, sem alça. Com a ascensão das classes populares e a extensão do lazer a amplas camadas da população, especialmente da década de cinqüenta em diante, as pessoas passaram a carregar as próprias malas. Foi aí que o mercado percebeu que era um bom negócio torná-las mais práticas. A química disse que não era coincidência, portanto, que as rodinhas tivessem surgido na década de 60, quando os baby-boomers atingiam à maioridade, e seu aparte foi muito bem vindo (acabando com a pequena desarmonia que havia, entre ela a mesa, desde o comentário sobre as malas duras). Eu perguntei se alguém sabia quando e quem havia inventado a mochila. Parecia-me coisa de americano, o ápice da comodidade e do individualismo. O engenheiro químico, que disse ser um fã de westerns, sugeriu que a mochila era uma evolução do alforje, aquela bolsa que os cowboys levavam sobre as selas de seus cavalos, e diante da discussão que iniciou-se, sacou seu blackberry para googlar “back pack”, mas foi justamente aí que começou a tocar New York, New York, o pai da noiva a tirou para dançar e fomos todos para a pista, ver mais de perto.

 

Ainda cruzei os quatro, outras vezes, e houve um momento em que eu, a mulher do diplomata e o general dançamos YMCA, mas não voltamos a trocar palavras. Aquela coisa de casamento.

One Response to “Aquela coisa de casamento”

  1. Rodrigo Vidal Ferraz Says:

    ahhahaha

    aquela coisa de casamento, elevador, festa de criança, integraçao da empresa… o famoso jogar papo fora

    fiquei curioso pra saber a origem da mochila…

    abs
    Vidal

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