John The Smoking Gun

Um texto antigo de John, que conta um pouco sobre seu passado.

 

A primeira vez de Butcher.

  

A mudança não é uma decisão, não se acorda no dia e diz “hoje eu vou mudar”. Não é algo planejado, pensado, não é um objetivo de vida. A mudança simplesmente acontece, pode ser uma conseqüência de vários fatos ou de um só isolado, por mais simples que seja. Lembro de Cajaca, aquele meu velho amigo de quem te falo, que no meio do expediente enxergou o mundo de uma nova forma e abandonou tudo o que até então era sua vida. É uma chave que se vira, uma porta que se abre, uma luz ou uma sombra, não sei. Mudar é como uma fagulha, capaz de uma revolução pessoal. Fagulhas que existem em todos nós, e que num momento qualquer…Bum!

Foi o que aconteceu com você?

Foi, e não me lembro bem quando.

Talvez eu já tenha mudado.

Mudamos de várias maneiras, várias vezes. Mas o que você espera neste seu momento de vida, acredito que ainda não. Pra chegar aonde você quer é preciso o primeiro tiro. Mas depois vem o inferno, o período antes da mudança, a transformação.

Como assim John?

Você assiste na TV ou imagina, certo? Você até se enxerga fazendo isso muitas vezes. O que acontece é que muito mais difícil do que parece, do que a TV, os livros, o cinema te ensina. Sei lá porra, é foda, uma bomba atômica explode dentro de você, todos os seus valores, princípios, medos e demônios emergem como vulcões na alma. Você atinge o céu e o inferno, tem que ter peito e cabeça pra achar o seu equilíbrio.

Não imagino que seja assim tão poético.

E não é mesmo, não tem porra alguma de poesia. Depende de cada um, tem cara que nasce matando, que matou família, amigo, filho, só que este aí não serve pra ser matador, entende? Insanidade não se bica com nossa profissão.

Insanidade se bica com prazer, sangue frio também. Eu topei entrar nesta por prazer.

Então nós vamos ver se você é um insano ou um matador de verdade. Não é preciso ter sangue frio para ser insano.

 

Lembrei da minha primeira vez, não ia contar a Butcher como minhas mãos tremiam no dia anterior. No momento, pá, aí não, eu tava bem chapado e a coragem brotou naturalmente. Eu tinha 30 anos, calejado de tanta porrada desta vida hipócrita, o sujeito era um desafeto do Zacchi. Eu havia sido empurrado ao trabalho, o meu velho tutor não estava em seus melhores dias, o câncer comia seus órgãos e sua pele queimava uma febre assustadora aquela noite, o serviço tava pago, era ir ou perder o cliente para sempre. Grande Joe confiou o serviço a mim, aquela foi nossa última conversa, no leito de sua cama “Garoto, você tem um pouco de insanidade nos teus atos, isso é legal até, eu gosto. Antes eu tinha medo hoje eu sei que você é capaz, use esta porra pro seu lado profissional ou vai foder tua vida como muitos fodem por aí, seja esperto. Vai lá e aperta o gatilho.” Era uma noite quente, voltei me questionando sobre aquilo “insanidade”, eu sabia disso, eu sentia aquilo e entendia que a linha era muito tênue.

 

Era meu primeiro trabalho sozinho e isso era assustador. A insanidade nestes momentos de terror tende a se exaurir, fica reprimida, covarde, por isso sempre fui um hitman exemplar nos meus primeiros anos de profissão. Esscolhi um calibre 38, eu já tinha preparo suficiente para me aproximar do alvo, e ele era um cara grande e rabugento: Escopeta. O apelido não veio porque o cara era um atirador exemplar deste clássico modelo, mas sim porque era um ogro comilão que quando cagava, parecia dar um tiro de escopeta na latrina, a lenda na roda do submundo o transformara em uma piada, diziam que o filho da puta cagava tão pesado que se um dia fosse preso, ia estourar o pinto de algum boiola que se metesse à besta. Apesar da fama, tinha um certo conceito no meio, era um revendedor de armas famoso. Estava em decadência agora e por isso, perdeu o medo de foder nos negócios, tirava proveito de criminosos estúpidos e amadores, estourava prazos, entrega material com defeito, o nome sujou de vez, atirou o nome pelo cu como fazia com a sua própria merda. Havia anos que Zacchi não fazia negócios com Escopeta, por um simples motivo: já havia fodido os negócios nas últimas vezes e demorou anos até dar outra chance ao cagalhão. Quando isso aconteceu, não é necessário explicar porque fomos designados a apagar o otário, eu e Grande Joe.

 

A casa de Escopeta ficava em Mandaquí, bairro barra-pesada. Quando entrei no sobrado, me deparei com uma pequena reunião entre o cagalhão e seus comparsas, eram cinco no total, todos armados até o dente. A anfetamina já balançava meu corpo com a dança da morte e entrei disparando em 180o, um movimento tão rápido que a arma parecia uma espada de samurai cortando a glote de quem estivesse à minha frente, e foi assim, a minha primeira vez. Me senti um Deus, sem nenhuma raspa de sangue, sem nenhuma ferida no corpo, eu havia matado cinco homens sem o mínimo esforço. O embrião do velho John The Smoking Gun estava fecundado.

  

– Butcher, você conhece aquele cara, o Marcinho Maneiro?

 O traficante?

– O cara está agindo em São Paulo já faz um tempo, vendendo pó como água, fazendo dumping e o caralho. Tem muito nego puto por aí com ele. 

É ele o alvo?

Não, é um cara do bando do Maneiro. Um susto no chefão. O nome do alvo é Porpas. 

Ei, aquele gordo é gente boa.

–  É ele.

Você vem comigo?

– Só até a porta.

John, relaxa. Ou você já se esqueceu que eu já matei também.

 Aquilo foi diferente moleque, bem diferente. Se eu te deixasse solto por aí, ia virar manchete rapidinho.

 

Butcher me lembrava jovem, um sujeito esperto e bem aporrinhado pela vida, tinha insanidade demais nos atos, mas nada que amedrontasse minha escolha pelo garoto. Conheci Butcher quando ele ainda se chamava Miguel Nascimento, um jovem delinqüente da Zona Sul que trabalhava num açougue da Vila Mariana, estabelecimento vizinho ao apartamento que eu morava naqueles tempos. Sr. Hyashi, o dono, um coreano filho da puta que escravizava os funcionários decidiu àquela manhã que ia dar um corretivo no Butcher, o moleque faltava e nunca avisava. O tiro saiu pela culatra, quando Hyashi levantou a mão pra dar uma palmada, Butcher tinha um facão na mão, nada mais. Na frente de uma velha senhora que levava lingüiças pro marido, ele depenou o coreano, matou a sangue frio e é aí que eu digo o que digo sobre insanidade: além de matar, despelar e mutilar o cadáver, Butcher pendurou o corpo no varal de carnes da vitrine principal do açougue, até que ficou engraçado ele ali, do lado da carne de porco, da picanha e dos pequenos leitões, com as tripas à mostra. Por sorte, eu passava ali na mesma hora, e encantado com aquela cena levei o menino pra se refugiar comigo. Moleques assim são difíceis de achar, têm uma porta aberta na mente que pro lado certo, viram os melhores matadores que você pode contar.

 

Porpas deveria estar sozinho àquela hora, e estava. Acenei da porta pro meu pupilo e o vi entrar em passos silenciosos, um tiro, depois dois, depois uma seqüência, aquilo era estranho. Entrei acelerado e imaginei um arsenal de capangas de merda fuzilando Butcher, uma emboscada. Butcher estava de pé, ao lado do corpo gordo e flatulento, os dois sozinhos, e atirava incansavelmente até o tambor tilintar pedindo mais fogo.

Butcher?

Seus olhos tremiam.

– Eu lembrei de meu Pai, aquele filho da puta.

– Era gordo igual?

Não, foi a mesma expressão dos olhos quando eu atirei na cabeça do velho.

Aquilo era novidade, e me assustou.

2 Responses to “John The Smoking Gun”

  1. Pu-pu-pu-pu-ta que parrrriu! Quero mais, cara. Aí tenho que botar o imperativo: Escreva.

  2. Rodrigo Vidal Ferraz Says:

    ahahahah, foda esse, nao conhecia!

    tiro de escopeta na latrina… ahahhahahahaahh

    muito bom guga, sério, muito bom!

    abs,
    Vdl

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