Eu, o parasita.

 

A natureza um dia vai tomar tudo de volta, ela vem devagarinho, vai tomando espaço e olha la, meu corpo esta todo coberto de pêlos. Tenho pêlo no rosto, ou melhor, na cara toda, um pouco abaixo do olho até o gogó, sem nenhuma falha. Até no nariz, se nao picoto um pouco semana sim, semana nao, fica aquela murva saindo pra fora, dou risada e é como se um pavao abrisse as asas. O pescoço também têm, ja nao faço mais o pezinho quando corto o cabelo, faço a nuca. A nuca é alias, na minha situaçao, a ligaçao de pêlos entre o cabelo e as costas. Antes, a nuca era um admirado intervalo careca entre o cabelo e os pêlos que começavam a desabrochar nas costas, hoje ela é o indicio de que as costam andam bem povoadas. Camiseta com gola canoa ja nao da mais. E ai as costas, ja emendada com a nuca, se emenda com os ombros, verdadeiras ombreiras de pêlos, repugnantes quando molhados, quando se sai do chuveiro é a coisa que menos quero olhar, aqueles pêlos todos, longos e escuros caindo como topete de um calvo, tapando minhas tatuagens e acabando com minha vaidade. E os ombros, se juntam com os pêlos dos peitos, é ali que esta a area que eu chamo de Faixa de Gaza, terriitorio de ninguém, nem dos ombros, nem do peito, inteira de pêlos mas ao contrario da verdadeira Faixa de Gaza, nenhuma das duas partes quer assumir o enxume de cabelo que cresce. E o peito é uma floresta negra, mas até ai, se fosse so o peito, aceitavel, mesmo peludo assim como é, acima da média dos homens comuns. O problema é que me olhando pelado, ele vira parte do todo, vira paisagem, parte do tapetao que me encobre. Mas ainda nao terminei com as costas. Desceu ja até o pulmao, sim, tipo daqueles tigroes peludos que se ri na praia, esta do mesmo jeito. E, paradoxalmente, nesta regiao eu repugno os trechos carecas, se é pra ter pêlo que domine minhas costas, agora você olha e vê tufos, mudas, zonas encobertas mas também zonas lisas, sem nada, como bunda de nenê. Minhas costas é um campinho de futebol de periferia, o gramado todo falhado. Da virilha pra baixo começou cedo, na adolescência, nenhuma novidade ai. So que mais uma vez, olhando como um todo, tudo fica estranho e inteiramente peludo. Me lembro de uma amiga minha que depois de anos sem me ver, disse « Você nao mudou nada! » Eu diise « É que você nao me viu pelado! ». As vezes me sinto como um parasita no meu corpo, o pêlo é quem domina, é dele este corpo. Eu me barbeio, tiro o excesso das costas, faço de tudo pra que ele nao avance demais. Mas nao tem jeito, um dia a natureza vai voltar com tudo, vai dominar o que é dela e eu, o parasita, vou morrer afogado em pêlos.

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