a troca

Ele estava cansado, cansado de tudo aquilo que estamos cansados. Pegou suas coisas e mudou de vida, mudou-se para uma cidade na ponta do nada, fria, poucos habitantes, sem as corporações e os grandes conglomerados. Simplicidade voluntária. Fugiu do trânsito, das aglomerações, dos trabalhos forçados em pequenos cubículos, tão pequenos que esmagam nossas esperanças, onde os sonhos não cabem, só cabe a idéia de vencer e ser o melhor. Fugiu de toda essa paranóia alucinante da cidade grande, fugiu dos preços exorbitantes, dos botecos lotados, dos ônibus enlatados, do metrô abarrotado, das filas de cinema. Agora ele, que gostava tanto de arte, via seus filmes no único cinema do centro da sua nova cidade, pequeno, aconchegante, com filmes que já estavam velhos, tinha todo um charme, fazia parte do pacote. Conheceu novas pessoas, fez novas amizades, estava longe do progresso, estava aonde tudo realmente importava, aonde tudo era ainda mais ou menos inocente, mais ou menos puro. Alugou uma casa no fim da rua do meio do nada, onde TV por assinatura nem internet chegava, comprou um cachorro manso pra passar a mão na cabeça, trouxe uma penca de livros. Acordava sem pressa, tomava um café gostoso, saia para dar uma volta com o cachorro, voltava, lia, dormia, saia de novo, ia no cinema, comprava uma cerveja gelada, batia na porta do vizinho, conversava, voltava, via um programa de TV com a única pretensão de dormir e dormia, dormia bem, profundo e feliz. E quando se passaram dois anos vivendo assim maravilhosamente, utopicamente, rindo dos outros e de tudo, dando sermões em quem ainda estava com o rabo preso ao mundo, teve de pegar o ônibus e voltar a São Paulo. Mas só por alguns dias. Desceu do ônibus, pegou um taxi e foi se encontrar com o dono da corretora de imóveis. Ordenou subir o aluguel de suas cinco casas, precisava do dinheiro para continuar com sua simplicidade voluntaria. E pra quem ele aumentou o aluguel em troca de toda aquela filosofia, esse aí é que tava é fudido. Já tava difícil antes, imagina agora, quem é esse filho da puta que vai me fazer trabalhar ainda mais duro pra pagar a porra dessa conta no fim do mês num trabalho de merda numa corporação de bosta, fadado a ficar ali o resto da vida pra que um dia eu possa, sei lá, ter grana suficiente para sair fora daqui, ir pro meio do nada, no fim do mundo e viver tranqüilo, feliz, longe de tudo que me deixa tão cansado, em busca daquilo que estava dando em troca.

3 Responses to “a troca”

  1. foda é que pra ir pra simplicidade voluntária, teria que pegar os 5 imóveis e dar pros mendingo e virar um … gosta de breja artes cinema e tudo mais engole o choro e desencana… o jeito é meter um poema:

    ir pela metade num é ir …
    ficar pela metade num é ficar …
    nossos problemas teremos em todo lugar …
    só de ter 5 imóveis
    ou um caro velho que seja,
    já fudemos uma par …

    tou triste por não ter um desses…

    um par…

    queria ser mindingo!!! com í mesmo

    • sujoebarato Says:

      pior que a historia é baseada em fatos reais, e é assim mesmo, pra um se dar bem, outro se fode. Depois do teu comment no texto do antônio prata e uma discussao com um brother que ar da sky sobre o assunto, veio esse texto ai.

  2. Gostei!!!

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