Cachorro grande


Sempre tive medo de cachorro grande, pra mim é sinônimo de cachorro bravo. Talvez isso tenha começado por causa do enorme fila que meu pai tinha quando eu era ainda um bebê, um dia ele e minha mãe voltaram de um jantar e o fila estava dentro do meu berço, não me lembro de nada, meu pai disse que ele ficava me encarando, curioso. Imagino ele me olhando e pensando “Vou te comer vivo!”. Bom, minha mãe surtou com isso e o fila foi entregue a outra família. Depois, quando eu tinha cinco ou seis anos, um vira lata enorme saiu de uma casa e começou a correr atrás de mim, aí sim eu me lembro, fiquei apavorado, ele parecia grande e bravo e eu corri muito. Imaginei ele latindo e dizendo “Corre filho da puta, corre!” Uma outra vez, já bem maior com meus vinte e poucos anos, fui na casa de um amigo que tinha um pitbull. Estava eu e um outro camarada, que alias tinha um cachorro grande em casa também, eu era o estranho no ninho. Entramos, o pitbull lambeu meu amigo e ele veio até mim em seguida, me olhou e rosnou. Depois começou a me cheirar e eu ali todo cagado esperando uma mordida. Nada aconteceu, mas o cachorro não saia do meu lado. Então meus dois amigos disseram que iam buscar alguma coisa no carro e eu fiquei sozinho com o pitbull, ele encostou do meu lado e ficou batendo o rabo em mim. Imaginei ele pensando “E aí cagão! Fica na miúda ou te abocanho a perna”, era isso que eu pensava. Gostaria de entender o que se passa na cabeça dos cachorros, isso talvez me tranqüilizasse. O único cachorro grande que não tenho medo é o Zezo do meu amigo Léo, um boxer branco e grande que sempre te olha com carinho e fica ali do seu lado pedindo cafuné, mas no fundo no fundo eu sempre espero uma mordida. Fiquei paranóico? Talvez. Talvez os cachorros não estão nem pensando em me morder, talvez o fila do meu pai estivesse me olhando e pensando “Bebê fofo, quero brincar com ele”. Talvez o vira lata que correu atrás de mim estivesse latindo em seus pensamentos “Ei você, quer brincar?”. Talvez o pitbull estivesse tocando o rabo em mim e pensando “Ei cara, relaxa, nada vai acontecer, coloca sua mão na minha cabeça e me faça carinho”. O Zezo, bom, acho que o Zezo nunca me morderia de verdade, só pequenas mordiscadas para me incentivar a dar atenção e brincar. Talvez os cachorros grandes queiram ser só meus amigos. Talvez.

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