O abuso do patrao

O corpo humano é uma màquina, um organismo vivo que trabalha em funçao do patrao. Imagine o corpo humano como uma empresa, você é quem manda e todo mundo la dentro trabalha por você. E  como em toda empresa, quando o patrao abusa, os funcionarios ficam irritados.

 

O motim comecou no Domingo de manha, mas nao dei bola, fiz vista grossa, apesar de ja sentir que o negocio estava turbulento. Domingao acordei, depois de um fim de semana repleto de excessos no qual antecederam alguns outros dias de excesso, e fui almoçar na casa de um amigo sérvio: um banquete de frios, carne de porco, pimentas em conserva, bolo de fuba, pudim de leite e muita cerveja. Enfim, dei uma de patrao filho da puta e mandei todo mundo dentro de mim trabalhar.

 

Bom, imagina você na mesma situaçao: domingao, sentado no sofa vendo tv com a familia, esperando a hora passar, descansando, relaxando depois de uma semana de trabalho intenso, cheia de horas extras e trabalhos de ultima hora. Ai você recebe um telefonema do patrao te chamando pro trabalho, coisa pesada, coisa séria, coisa que nao da pra deixar pra segunda. É obvio que você recebe a noticia esbaforido de odio, xingando teu chefe de tudo quanto é nome. E la vai você pro escritorio. Quando chega, ta todo mundo la, o patrao filho da puta botou todo mundo na fogueira para resolver seus proprios problemas.

 

Imagine isso dentro do meu corpo. Imagine as minhas enzimas recebendo esse chamado domingao a tarde, depois da minha refeiçao de glutao na casa do sérvio e uma bagagem de dias de excesso. Estavam todas elas la, sentadas no sofa, brincando com seus filhos, de pijama, esperando o Fantastico, dia de descanso, quando eu chamo todo mundo pro batente. A enzima enfurecida atende ao pedido do patrao, afinal sou eu que pago o salario dela, que bota comida na mesa dela. Quando ela chega, ta tudo cagado : o alarme vermelho apitandos em parar, sirenes de urgência pelo corpo todo, enzimas correndo igual loucas para resolver a situaçao, o estomago dilatado, nervoso, explodindo. É salame, mortadela, roti de porco, pimenta, refrigerante, cerveja, doces, tudo aquilo misturado, mal-mastigado, jogado no meu estomago que sofre, que berra, que clama por ajuda. É problema que nao acaba mais, gases que explodem em todo lugar, o maquinario pifando, tudo funcionando mal.

 

Imagino todas minhas enzimas colocando o capacete, pegando as ferramentas de trabalho, todas elas bufando, frustadas, olhando com raiva para o bolo alimentar. « Vamos ter de nos enfiar ai no meio e separar o que é bom e nao é bom pro patrao ». Isso mesmo, entrar naquele bolo de merda e  tentar encontrar bons nutrientes pra minha saude, limpar a bagunça, jogar o lixo pro intestino, um trabalho arduo, de horas a fio, um domingo perdido.

 

Pois nao posso culpar entao, o que aconteceu depois disso. Tenho a absoluta certeza que minhas enzimas enfurecidas decidiram fazer um motim contra minha pessoa. Imagino a enzima-chefe no alto da boca do estomago clamando para todas as outras la embaixo :

 

          Vamos trabalhar o cacete! Vamos é foder mais ainda esse filho da puta!

 

E aquilo foi um grito de liberdade para todas elas, um grito rebelde, um basta ao abuso do patrao.

 

          Peguem o que der pra aproveitar desse bolo todo. O que nao der, joga tudo na lixeira, deixa o intestino do patrao resolver o problema. O cara que se cague nas calças amanha!

          Isso! É isso! – gritaram todas elas

          E o que a gente faz com a gordura? – perguntou uma enzima inocente.

          Eu nao vou acordar ninguém pra fazer essa porra queimar. Enxota toda a gordura na parte abdominal do filho da puta ! – berrou a enzima-chefe.

          Isso ! É isso mesmo ! – gritaram ainda mais forte todas elas.

          E sabe o que mais minhas amigas ?

          O que?! O que?!

          Vamos liberar o suco gastrico! Abre a valvula ai embaixo e deixa o acido comer dentro do estomago. Vamos todas pra casa descansar!

 

Acordei na segunda-feira com uma dor de cabeça terrivel, uma gastrite avassaladora e o frango batendo asa na cueca. Uma caganeira que me fazia suar frio. Acordei puto e mal-humorado, enquanto minhas enzimas riam de mim e dormiam até mais tarde.

3 Responses to “O abuso do patrao”

  1. Muito bom, Gustavo. Parabéns. Comecei até a passar mal só de ler. Acho que é reflexo dos excessos de Natal e Revéillon. Frango na cueca? Eu acho que eu tinha um pé de porco enfiado no… na garganta.

    • sujoebarato Says:

      Gabriel! Obrigado. Quando os excessos do Natal e Reveillon terminam, chega o Carnaval, rs!
      Um grande abraço
      Guga

  2. Genial!

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