Archive for February, 2011

Sem descanso, sem cochilo, sem freio.

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , on February 12, 2011 by gugagessullo

Você já pensou quanto tempo passa dormindo na vida? Outro dia conversando com um amigo meu, ele me solta essa informação reveladora: se um ser humano vive até os 90 anos, ele passou 30 dormindo. Verdade. Faça os cálculos você mesmo: dormindo uma média de 8 horas diárias durante um mês completo, você passou 10 dias embaixo das cobertas dormindo.  Tem gente que dorme mais, outras menos, mas é mais ou menos isso aí mesmo. 10 dias vezes 12 meses dão 120 dias no ano. Se você conseguir chegar aos 90, são 10800 dias de sono, que dão exatamente 29,58904 anos! Inacreditável.

E então, bateu um desespero? Acha que anda vivendo pouco e dormindo muito? Vai pensar duas vezes antes de ficar enrolando na cama num sabadão ensolarado? Ou já que o mundo anda uma merda, o melhor é fechar os olhos pra sofrer menos? Então imagine se você soubesse o seu prazo de validade: imagine um mundo onde as pessoas nascessem dormindo e só acordassem quando tivessem dormido todos os anos relativos ao total de suas vidas. Se eu vou morrer com 60 anos, eu acordo com 20 anos de idade. Você, se morrer aos 50, acorda no auge da adolescência: 16 aninhos. E depois nunca mais ia dormir, até o dia do sono eterno.

É uma simples regra de três. Imagine o coitado que acordou com 5 aninhos. Com 15 anos já  está embaixo da terra. O cara se bobear nem chega à puberdade, cresceu a primeira espinha, ela estoura e ele morre. Ou você acorda com 13 anos e nos 40, é o fim.  Bem ali no auge da vida adulta, numa manhã qualquer, ao lado da esposa e dos filhos, passando manteiga no pão e você empacota de vez. Mas acho que a vida não ia ser assim. Imagine a loucura que seria. Imagine a disposição com a qual íamos acordar. Abriu os olhos, 20 anos, alucinado de tanta energia, a pele até coça, você quer é quase explodir. Não tem mais essa de dormir, nada disso de ficar cansado, energia interminável até os 60 anos.

7h00 da manhã. O cara toma um banho, dropa um café, come um pão, limpa a casa, corta a grama, lava a louça, faz faxina, leva o cachorro pra passear, liga pra mãe, leva os filhos pra escola, volta, pega a bicicleta, 10 km, toma banho, canta no chuveiro, vai para o trabalho e quando olha no relógio: 9h00 da manhã! Porra, é energia que não acaba mais meu amigo. E não é que o sujeito está cansado, quer chegar em casa e colocar os pés pra cima. Não! Ele tá é na pegada! Trabalha o dia todo como um louco, proativo, dá opinião em reunião, vem com ideias novas, entrega tudo antes do prazo, almoça, volta, arrepia ainda mais, a empresa toda alucinada, o mundo todo pegando fogo. As 6 da tarde vai pro happy hour, volta pra casa pilhadão, abre a porta e a mulher tá do mesmo jeito, até bufando de tanta vontade de fazer alguma coisa, batendo a cabeça a parede, pulando corda. Os dois saem pra jantar, duas garrafas de vinho, emendam uma balada, transam no banheiro da boate, chegam em casa, mais sexo, ligam pros amigos, falam com a família toda, decidem pegar o carro e ver o amanhecer na praia, banho de mar pelados, água de coco, jacaré, pegam a estrada de volta. 7h00 da manhã e tudo recomeça.

A vida seria uma continuidade intensa, frenética, nonstop, um tal de quero-tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Crianças em corpos de adultos sacudindo o mundo. Sem cochilos num domingo à tarde, sem pestanas depois do almoço. Só uma fatalidade, uma doença, poderia quebrar esse ritmo inquieto. Imagine então quem acordou aos 3 anos de idade. Aos 9 anos, já era. Uma criança ligada no 220 por 24 horas durante 6 anos ininterruptos. Imagino a vizinhança comentando:

– Você viu o filho da Maria? Acordou com 3 aninhos.

– Ah coitado, esse vai cedo.

Esses seriam os mais alucinados de todos, a vida uma loucura sem fim, cada dia como se fosse o ultimo. Você olharia para o céu procurando estrelas e veria um bando de adolescentes cadentes rasgando o céu em seus para-quédas, gritando, berrando, adrenalina no máximo.

É, eu acho que esse mundo não seria para mim.  Eu juro que não ia aguentar o tranco. Ia me jogar da ponte, meter uma bala na cabeça. Prefiro esse mundo mesmo, viver aos pouquinhos, intercalando vida e sono, às vezes vivendo mais, às vezes dormindo mais, eu controlando essa balança como achar melhor. Se a gente perde boa parte da vida dormindo, então o melhor mesmo é aproveitar enquanto estamos de pé. E sonhar. E morrer sem saber quando.

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Cuscuz

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , on February 8, 2011 by gugagessullo

Morar fora do País te faz ter saudades de coisas estranhas. Por exemplo, o cuscuz paulista. Sabe aquela massaroca-alaranjada-delicia que vai tudo e mais um pouco? Milho, ervilha, palmito, pimentão, azeitonas, tomate, atum, camarão ou frango, enfeitada com rodelas de ovo em cima? Aquela maravilha culinária de baixo custo que esta em qualquer quilo da cidade, junto do buffet de saladas, servido frio. Que raramente esta intacta, alguém já passou na fila do quilo antes de você e pegou um bom pedaço.

 

Quem consegue resistir ao cuscuz paulista num quilão em São Paulo? Você até olha de lado na hora de pegar sua fatia e, se ninguém estiver olhando, rouba duas ou três rodelas de ovo das outras fatias, não é mesmo? É costume ver homens e mulheres nas filas do quilo, no auge da fome, com suas fatias de cuscuz paulista cobertas de rodelas de ovos roubadas, mesmo que o prato já tenha uma dúzia de ovos de codorna. Sim, somos exagerados. Sim, gostamos de nosso cuscuz com bastante ovo. Sim, complementamos o prato com uma boa dose de ovo de codorna. Sim, ovo de codorna tem o mesmo peso psicológico que o amendoim. E depois falamos ao Dr. “mas eu como ovo só de vez quando, no cuscuz do quilo. Porque meu colesterol anda assim tão alto?”. Ahahahaha, somos hilários também.

 

Bom, mas voltando ao cuscuz. Minha esposa veio com a idéia de fazer um cuscuz paulista. Eu juro que até salivei quando mentalmente vi a imagem dele na minha cabeça. Consegui me ver até comendo o cuscuz, abocanhando a massa, mordendo uma variedade de sabores ao mesmo tempo. Tenho imaginação forte. Sou capaz até de acreditar que comi o cuscuz, fazer a digestão e terminar com um peidinho. Mas enfim, topei fazer a receita com ela. E aí entramos num outro território complicado: quem aqui já fez um cuscuz na vida? Meus amigos, a internet tem receitas tão variadas deste quitute que você fica perdido: com farinha de mandioca, sem farinha de mandioca, com farinha de milho em flocos, com farinha de milho em grãos, coloca ou não coloca água, extrato ou molho de tomate. Cada um dá uma receita e acredito (não fui atrás) que a história do cuscuz paulista esteja bem refletida ai: o pessoal usava o que sobrou na geladeira e o que mais tinha na despensa, misturava com farinha de não-sei-o-quê para dar a liga, jogava um molho de tomate pra dar aquela cor linda e cozinhava aquilo tudo até virar uma massa grossa e colorida. Devia ser algo assim, do dia-a-dia, sem segredo mesmo, cada um fazendo do seu jeito. Mas a internet te deixa perdido, muitas receitas, muitos palpites, você fica inseguro, não sabe o que coloca direito, tenta lembrar da consistência através da memória gustativa, fica com medo que o negócio vai virar um grude, um monstro laranja com olhos de ovo cozido.

 

Ai então decidimos perguntar aos nossos amigos. Pior. Cada um dando palpite diferente, falando grosso, lembrando de segredos familiares, de receitas da avó, teorias mirabolantes de como o cuscuz chega àquela consistência, do tipo “olha, se eu não me engano o segredo está no caldo”. Mas que caldo é esse?! De fato, a busca pela receita perfeita foi cheia de momentos divertidos. E a vontade de comer o tal cuscuz era tanta que não teve jeito, eu e minha patroa nos olhamos e falamos “vamos que vamos!”. Vamos usar um pouco daquilo que vimos na internet, com aquele palpite da minha mãe, com aquela dica do amigo e seja o que deus quiser. Desbravamos Montréal atrás de todos os ingredientes, entrando em todo mercadinho português que víamos pela frente atrás da tal da farinha de mandioca e da farinha de milho em flocos. Chegamos em casa com os pés exaustos e sacolas cheias de ingredientes na mão. E então minha patroa foi para o fogão. Apreensão na sala. Não consegui nem seguir o placar do jogo do meu time pela internet. De longe eu gritava “e ai, amor?” De lá ela respondia “Tá parecendo que vai dar certo”. “Não esquece de colocar as rodelas de ovo”, eu aconselhava. “Fica quieto e não enche o saco”, esbravejava a patroa. E assim, 30 minutos depois de começar o preparo ela volta com um sorriso no rosto “Tá igualzinho!”. Putz, nem me lembro, mas acho que nos abraçamos, nos beijamos, aquela festa. Enquanto o cuscuz resfriava na geladeira, saboreávamos o sucesso da empreitada. E enfim, sentamos à mesa, fatiamos pedaços generosos, roubamos rodelas de ovo de outras fatias, nos esbaldamos complementamente. Com aquele gostinho delicioso de saudade de casa. E o pior é que na febre de fazer o cuscuz, juntando as peças do quebra-cabeça de possíveis receitas, esquecemos de anotar o segredo do nosso sucesso. Paciência, da próxima vez começaremos tudo de novo. Uma outra aventura, um outro cuscuz.