Cuscuz

Morar fora do País te faz ter saudades de coisas estranhas. Por exemplo, o cuscuz paulista. Sabe aquela massaroca-alaranjada-delicia que vai tudo e mais um pouco? Milho, ervilha, palmito, pimentão, azeitonas, tomate, atum, camarão ou frango, enfeitada com rodelas de ovo em cima? Aquela maravilha culinária de baixo custo que esta em qualquer quilo da cidade, junto do buffet de saladas, servido frio. Que raramente esta intacta, alguém já passou na fila do quilo antes de você e pegou um bom pedaço.

 

Quem consegue resistir ao cuscuz paulista num quilão em São Paulo? Você até olha de lado na hora de pegar sua fatia e, se ninguém estiver olhando, rouba duas ou três rodelas de ovo das outras fatias, não é mesmo? É costume ver homens e mulheres nas filas do quilo, no auge da fome, com suas fatias de cuscuz paulista cobertas de rodelas de ovos roubadas, mesmo que o prato já tenha uma dúzia de ovos de codorna. Sim, somos exagerados. Sim, gostamos de nosso cuscuz com bastante ovo. Sim, complementamos o prato com uma boa dose de ovo de codorna. Sim, ovo de codorna tem o mesmo peso psicológico que o amendoim. E depois falamos ao Dr. “mas eu como ovo só de vez quando, no cuscuz do quilo. Porque meu colesterol anda assim tão alto?”. Ahahahaha, somos hilários também.

 

Bom, mas voltando ao cuscuz. Minha esposa veio com a idéia de fazer um cuscuz paulista. Eu juro que até salivei quando mentalmente vi a imagem dele na minha cabeça. Consegui me ver até comendo o cuscuz, abocanhando a massa, mordendo uma variedade de sabores ao mesmo tempo. Tenho imaginação forte. Sou capaz até de acreditar que comi o cuscuz, fazer a digestão e terminar com um peidinho. Mas enfim, topei fazer a receita com ela. E aí entramos num outro território complicado: quem aqui já fez um cuscuz na vida? Meus amigos, a internet tem receitas tão variadas deste quitute que você fica perdido: com farinha de mandioca, sem farinha de mandioca, com farinha de milho em flocos, com farinha de milho em grãos, coloca ou não coloca água, extrato ou molho de tomate. Cada um dá uma receita e acredito (não fui atrás) que a história do cuscuz paulista esteja bem refletida ai: o pessoal usava o que sobrou na geladeira e o que mais tinha na despensa, misturava com farinha de não-sei-o-quê para dar a liga, jogava um molho de tomate pra dar aquela cor linda e cozinhava aquilo tudo até virar uma massa grossa e colorida. Devia ser algo assim, do dia-a-dia, sem segredo mesmo, cada um fazendo do seu jeito. Mas a internet te deixa perdido, muitas receitas, muitos palpites, você fica inseguro, não sabe o que coloca direito, tenta lembrar da consistência através da memória gustativa, fica com medo que o negócio vai virar um grude, um monstro laranja com olhos de ovo cozido.

 

Ai então decidimos perguntar aos nossos amigos. Pior. Cada um dando palpite diferente, falando grosso, lembrando de segredos familiares, de receitas da avó, teorias mirabolantes de como o cuscuz chega àquela consistência, do tipo “olha, se eu não me engano o segredo está no caldo”. Mas que caldo é esse?! De fato, a busca pela receita perfeita foi cheia de momentos divertidos. E a vontade de comer o tal cuscuz era tanta que não teve jeito, eu e minha patroa nos olhamos e falamos “vamos que vamos!”. Vamos usar um pouco daquilo que vimos na internet, com aquele palpite da minha mãe, com aquela dica do amigo e seja o que deus quiser. Desbravamos Montréal atrás de todos os ingredientes, entrando em todo mercadinho português que víamos pela frente atrás da tal da farinha de mandioca e da farinha de milho em flocos. Chegamos em casa com os pés exaustos e sacolas cheias de ingredientes na mão. E então minha patroa foi para o fogão. Apreensão na sala. Não consegui nem seguir o placar do jogo do meu time pela internet. De longe eu gritava “e ai, amor?” De lá ela respondia “Tá parecendo que vai dar certo”. “Não esquece de colocar as rodelas de ovo”, eu aconselhava. “Fica quieto e não enche o saco”, esbravejava a patroa. E assim, 30 minutos depois de começar o preparo ela volta com um sorriso no rosto “Tá igualzinho!”. Putz, nem me lembro, mas acho que nos abraçamos, nos beijamos, aquela festa. Enquanto o cuscuz resfriava na geladeira, saboreávamos o sucesso da empreitada. E enfim, sentamos à mesa, fatiamos pedaços generosos, roubamos rodelas de ovo de outras fatias, nos esbaldamos complementamente. Com aquele gostinho delicioso de saudade de casa. E o pior é que na febre de fazer o cuscuz, juntando as peças do quebra-cabeça de possíveis receitas, esquecemos de anotar o segredo do nosso sucesso. Paciência, da próxima vez começaremos tudo de novo. Uma outra aventura, um outro cuscuz.

2 Responses to “Cuscuz”

  1. haha
    genial a saga do cuscuz, gugão
    deu até vontade de comer…embora eu não seja dos maiores fãs do requintado grude amarelo. acho que vou tentar fazer em casa só pra ver se rende essa história toda que rolou por aí.

    bj

  2. artur! eu tambem nunca fui muito fã. mas agora to pirando o cuscuz… acho que é saudade de tudo e todos. ahaha
    beijos!

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s

%d bloggers like this: