Sem descanso, sem cochilo, sem freio.

Você já pensou quanto tempo passa dormindo na vida? Outro dia conversando com um amigo meu, ele me solta essa informação reveladora: se um ser humano vive até os 90 anos, ele passou 30 dormindo. Verdade. Faça os cálculos você mesmo: dormindo uma média de 8 horas diárias durante um mês completo, você passou 10 dias embaixo das cobertas dormindo.  Tem gente que dorme mais, outras menos, mas é mais ou menos isso aí mesmo. 10 dias vezes 12 meses dão 120 dias no ano. Se você conseguir chegar aos 90, são 10800 dias de sono, que dão exatamente 29,58904 anos! Inacreditável.

E então, bateu um desespero? Acha que anda vivendo pouco e dormindo muito? Vai pensar duas vezes antes de ficar enrolando na cama num sabadão ensolarado? Ou já que o mundo anda uma merda, o melhor é fechar os olhos pra sofrer menos? Então imagine se você soubesse o seu prazo de validade: imagine um mundo onde as pessoas nascessem dormindo e só acordassem quando tivessem dormido todos os anos relativos ao total de suas vidas. Se eu vou morrer com 60 anos, eu acordo com 20 anos de idade. Você, se morrer aos 50, acorda no auge da adolescência: 16 aninhos. E depois nunca mais ia dormir, até o dia do sono eterno.

É uma simples regra de três. Imagine o coitado que acordou com 5 aninhos. Com 15 anos já  está embaixo da terra. O cara se bobear nem chega à puberdade, cresceu a primeira espinha, ela estoura e ele morre. Ou você acorda com 13 anos e nos 40, é o fim.  Bem ali no auge da vida adulta, numa manhã qualquer, ao lado da esposa e dos filhos, passando manteiga no pão e você empacota de vez. Mas acho que a vida não ia ser assim. Imagine a loucura que seria. Imagine a disposição com a qual íamos acordar. Abriu os olhos, 20 anos, alucinado de tanta energia, a pele até coça, você quer é quase explodir. Não tem mais essa de dormir, nada disso de ficar cansado, energia interminável até os 60 anos.

7h00 da manhã. O cara toma um banho, dropa um café, come um pão, limpa a casa, corta a grama, lava a louça, faz faxina, leva o cachorro pra passear, liga pra mãe, leva os filhos pra escola, volta, pega a bicicleta, 10 km, toma banho, canta no chuveiro, vai para o trabalho e quando olha no relógio: 9h00 da manhã! Porra, é energia que não acaba mais meu amigo. E não é que o sujeito está cansado, quer chegar em casa e colocar os pés pra cima. Não! Ele tá é na pegada! Trabalha o dia todo como um louco, proativo, dá opinião em reunião, vem com ideias novas, entrega tudo antes do prazo, almoça, volta, arrepia ainda mais, a empresa toda alucinada, o mundo todo pegando fogo. As 6 da tarde vai pro happy hour, volta pra casa pilhadão, abre a porta e a mulher tá do mesmo jeito, até bufando de tanta vontade de fazer alguma coisa, batendo a cabeça a parede, pulando corda. Os dois saem pra jantar, duas garrafas de vinho, emendam uma balada, transam no banheiro da boate, chegam em casa, mais sexo, ligam pros amigos, falam com a família toda, decidem pegar o carro e ver o amanhecer na praia, banho de mar pelados, água de coco, jacaré, pegam a estrada de volta. 7h00 da manhã e tudo recomeça.

A vida seria uma continuidade intensa, frenética, nonstop, um tal de quero-tudo-ao-mesmo-tempo-agora. Crianças em corpos de adultos sacudindo o mundo. Sem cochilos num domingo à tarde, sem pestanas depois do almoço. Só uma fatalidade, uma doença, poderia quebrar esse ritmo inquieto. Imagine então quem acordou aos 3 anos de idade. Aos 9 anos, já era. Uma criança ligada no 220 por 24 horas durante 6 anos ininterruptos. Imagino a vizinhança comentando:

– Você viu o filho da Maria? Acordou com 3 aninhos.

– Ah coitado, esse vai cedo.

Esses seriam os mais alucinados de todos, a vida uma loucura sem fim, cada dia como se fosse o ultimo. Você olharia para o céu procurando estrelas e veria um bando de adolescentes cadentes rasgando o céu em seus para-quédas, gritando, berrando, adrenalina no máximo.

É, eu acho que esse mundo não seria para mim.  Eu juro que não ia aguentar o tranco. Ia me jogar da ponte, meter uma bala na cabeça. Prefiro esse mundo mesmo, viver aos pouquinhos, intercalando vida e sono, às vezes vivendo mais, às vezes dormindo mais, eu controlando essa balança como achar melhor. Se a gente perde boa parte da vida dormindo, então o melhor mesmo é aproveitar enquanto estamos de pé. E sonhar. E morrer sem saber quando.

3 Responses to “Sem descanso, sem cochilo, sem freio.”

  1. Nanico, é aquela famosa frase de caminhao … ” escolha, 10 anos a mil por hora ou mil anos a 10 por hora …” . Agora para nao se apavorar, faça como o tio Aldo da Beta fazia para enganar o tempo, imagine que quando dormimos nao conta como tempo de vida, ou seja, se varamos uma noite, podemos dormir no dia seguinte sem peso que a vida nao vai cobrar…

    Detalhe relevante: meu idolo Aldo morreu na casa dos 50.

    Um abs dormindo para nao perder tempo.

  2. Caraca Guga, deu pra imaginar a gente em pé no bumba lotado na Berrini, trocando idéia sobre isso ao invés de reclamar do trânsito que não anda (tá tudo igual por aqui mermão…).

    Acho que a coisa ainda não tá nesse estágio, mas esses dias me vi pensando que nossa galerinha que está na casa dos 30 já viveu muito mais do que muita gente com 60, 70… O ritmo mudou demais e não sei se pra melhor, sinceramente.

    Abraço para você!

    Bunny

  3. Adorei!… Mas já são 23h, tarde demais pra deixar um comentário inteligente.

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