A revolta dos queijos

Foi Mr. Roquefort quem começou a polêmica. Ele estava possesso com esta rotulação exagerada em cima do Catupiry. Decidiu então convocar uma reunião de urgência em sua casa. E vieram todos: o popular Mussarela, o forte Parmesão, o esquisito Gorgonzola e seus pequenos fungos, o prepotente Grana Padano, toda a familia Pecorino, o cascudo do Provolone, o maturado Asiago, a natureba da Ricota, o cremoso Mascarpone, o fresco do Gouda, o esférico Edam, o entojado Gruyere, a elitista Camembert, o difícil Blue Cheese, o redneck do Cheddar, o bondoso Queijo Prato e até eles, os brasileiros Coalho, Minas e Meia-Cura.

Questionado pela ausência de queijos como Requeijão e Cream Cheese, Roquefort foi explícito na sua teoria da segregação:

“Olhem bem meus caros, somos queijos, eles não. É questionável até a autenticidade do Catupiry então para este dois aí nem sequer abro discussão. São misturas!” – e fez uma cara de desgosto.

Todos aplaudiram fervorosamente.  Após os aplausos cessarem, Camembert, sempre ele, deu seu pitaco final:

“Mas olhem bem meus amigos, há tempos que o Requeijão compete com o Catupiry, quem nunca viu em cardápios de segunda por aí o tal do Requeijão Cremoso? Me pergunto novamente se não devemos o incluir numa próxima reunião. “

Quem estava mudo e calado desde o começo era o Cheddar, pois todos ali sabiam do seu flerte descarado com os cardápios populares apesar do status de queijo gringo quando chegou aqui. E ele gostava disso na verdade, Cheddar tinha um pouco da síndrome norte-americana, queria dominar o mundo. Via sua popularização com bons olhos e trabalhava arduamente para não sair de cardápios de lanchonetes requintadas que garantiam sua fatia no mercado entre os mais afortunados, pensava nos dois lados da mesa. Cheddar sustentava uma verdadeira tática secreta de guerrilha contra o Catupiry. E é claro, ser visto como alguém que quer o lugar de Catupiry sem dividir o espaço, não seria bem-vindo ali. “São tempos de guerra” – pensava sempre ele.

Quem não estava contente era Brie. Rolavam boatos de que ela havia se rendido aos encantos do Catupiry e até de que o Polenghi era fruto de uma relação proibida entre os dois. Pois bem, a verdade é que Brie sempre flertou com geléias e afins e quando veio ao Brasil se deparou com a deliciosa Goiabada. E todo mundo sabe que somente deliciosa a Goiabada não é, mas também bem safadinha: vai sempre com o Minas, já foi com Queijo Prato, tem momentos com o Coalho e acabou enlouquecidamente apaixonada nos braços do Catupiry.

“Vamos começar nossa reunião” – começou Roquefort – “Porque ele, bem ele, conseguiu o mais belo dos triunfos: um produto, um queijo como todos nós, ter seu nome estampado como marca. É no mínimo injusto, não conheço por aí uma marca Roquefort, Camembert, conhecem? Que tipo de favorecimento a sociedade e os investidores vêm dando a este tipo de queijo?”

Mussarela aproveitou o discurso e soltou o verbo:

“Nem mesmo eu, o mais popular dos queijos! Estou nas massas, nas pizzas, nos risotos, nos omeletes, nos salgados diversos. Venho assim de geração em geração sem perder a pose, sempre no topo, mas aí chega um moleque metido a queijo, este tal de Catupiry, e quer posar de bonitão? ”

“Tem razão” – pontuou Camembert, invejoso no fundo. “Se existe alguém aqui que merece ser uma marca é você caro Mussarela. Chegou com os imigrantes italianos e ajudou a construir a gastronomia desse país. Do Brás, do Bom Retiro e do Bexiga para todos os bairros em tão pouco tempo, nunca preconceituoso, sempre em qualquer prato, em qualquer classe social. É chique e popular ao mesmo tempo, um ícone, um mito!”

Enquanto Roquefort, Camembert e Mussarela participavam ativamente, Parmesão estava calado como nunca. E aquilo chamou a atenção dos líderes daquela reunião, porque aquele queijo tão nobre e de presença marcante que sempre teve o merecido respeito e voz ativa estava assim tão calado?

“Parmesão? Parmesão, querido?” – Camembert pediu que Gruyère o cutucasse.

“Oi, estou aqui” – Parmesão levantou-se de sopetão, soltando lascas pelo chão. “Eu queria explanar aqui minha revolta em relação a minha versão ralada.” – fez-se um silêncio monumental, pois a versão ralada sempre foi um assunto tabu para o Parmesão, como um filho bastardo. “Nunca fui contra a esta minha singular versão, tão sempre bem apreciada principalmente em massas e risotos e que fez crescer o apreço do povo por este queijo que vos fala. Mas aí veio algum idiota e me joga numa porção barata de polenta frita, vocês se sentiriam como? E de risoto, pulo pra um arroz de forno caseiro, isso engrandece um queijo? E viro ingrediente de tortas, jogam-me em batatas fritas oleosas e pegajosas, estou até em versões congeladas de lasanha! E como vocês acham que anda minha auto-estima, hein? Sou um queijo sem pátria hoje, ou melhor, sem prato. Vou em tudo, e só minha versão ralada. Para mim, só sobram apreciadores de lascas de parmesão que me lapidam vorazmente. Eu vejo meu nome sendo comercializado como Teixeira, Faixa Azul, quem são eles para me popularizarem assim? Produção em massa de um queijo italiano, ma che?!”

 “Parmesão” – interrompeu Gorgonzola. “Com sincero respeito à sua dor, podemos discutir isso mais tarde? A pauta é o Catupiry.”

“Fala isso só porque não podem te ralar e te vender em sacos plásticos, seu miserável!” – Parmesão caiu aos prantos.  Gorgonzola, arrependido, foi consolá-lo e achou melhor o levar para dar uma volta lá fora. Parmesão estava descontrolado e aquilo poderia gerar uma revolta individual coletiva, que queijo ali não se sentia hoje menosprezado pela sociedade também? Dali para o Gruyère reclamar que andava sendo usado para gratinar batatas seria um pulo. Roquefort tomou a frente e pediu silêncio.

“Queridos, voltemos ao Catupiry.”

“Sim, voltemos a ele” veio o coro geral.

“Outro dia fiquei sabendo de uma coisa que levou a este estopim. E qual foi minha surpresa quando em uma pizzaria refinada dos Jardins vi estampado no cardápio a logomarca do Catupiry”

“Ohhhhhhhhhhh” – todos estavam espantados.

“Agora é lei amigos! Além de intromissivo, é mesquinho! Para um estabelecimento dizer que tem Catupiry no seu cardápio, deve ter o seu logo impresso no cardápio!”

“É por isso que acho importante a presença do Requeijão, caro amigo Roquefort. É ele o queijo mais prejudicado diretamente, Catupiry fez isso para barrar sua expansão. Todos nós sabemos que o Requeijão Cremoso é uma pobre mistura entre queijo e leite, gordurosa e opaca, sem a densidade que um queijo cremoso merece, não é Mascarpone? Mas tachá-lo de imitação barata é outra coisa, afinal ele tem vida própria. Ele seria um excelente aliado e dos mais fervorosos!”

“Pouco me lixo com o Requeijão” – Gruyère tomou partido pela primeira vez. “Vocês não enxergam o que está por trás disso? Em menos de cinco anos eu garanto que o Catupiry será um queijo de ordem nobre! A sua esperta tática de imprimir-se em cardápios, banaliza a trajetória ascendente do Requeijão Cremoso, colocando-o de fato num patamar de queijo imprestável, de imitação barata, O Catupiry é o 1º queijo marqueteiro da história!”

“E o que fazer para impedi-lo?” – berrou Cheddar, devidamente preocupado com o que ouviu.

“Sinceramente não sei” – Gruyère baixou a cabeça.

“É de fato uma atitude previsível” – gritou a Ricota lá do fundo. “Um queijo como você, Gruyère, que não é usado para o paladar popular, que só é usado em cardápios caros e em fondues. Você não vive o que vivemos: a banalização de nosso uso fruto. Aliás, eu aponto o dedo para o Roquefort, Camembert e outros aqui nunca foram usados com banana, tapiocas, fritos em pastéis e omeletes, com catchup nas pizzas e em sujas chapas de lanchonetes!”

Ricota sempre dava uma dessas nas reuniões, era revoltada e extremista como toda natureba. Não percebia que ela mesma nunca tinha entrado numa chapa suja e não aceitava o fato de ter virado ingrediente de sobremesa.

“Cale a boca Ricota! Você é hoje mais popular no cheesecake do que sozinha!” – Brie tinha uma rusga com ela.

Ricota era realmente um caso a parte. Nascida para ser apreciada sozinha, no máximo com temperos e em pães e massas, acabou sendo associada a doces italianos como a cassarola, sfogliatella ou a doces americanos como o cheesecake. De musa do salgado para musa do doce, perdeu sua identidade. Relutando para estar somente aos cardápios de docerias, acabou se rendendo a buffets vegetarianos, sanduíches naturais, pizzas e comidas sem gosto algum. Pobre Ricota, comparada hoje ao intragável Cottage, que, aliás, não estava ali por falta de respeito, pois foi chamado mas devia estar exercitando seu domínio nos cardápios de academia.

Mais uma vez ele, Gorgonzola, e seus pequenos fungos fizeram à boa ação de retirar a enlouquecida Ricota do recinto, Parmesão reabilitado voltava ao seu lugar. Gorgonzola fazia de tudo par manter esta fama de “sou feinho, mas sou bom”

“Pessoal, retomando” – Roquefort apropriou-se da palavra “Vamos tentar nos focar no Catupiry, por favor” – todos concordaram. “Gruyère tocou num ponto importante aqui, Catupiry objetiva a dominação. Há dez anos atrás, lembro de um papo que tive com o Camembert onde ironizamos um novo recheio que havia sido incorporado nas pizzarias: frango com catupiry. Pensamos isso é besteira, quando um adulto vai querer comer um recheio tão sonso como esse. Mas de fato, as crianças adoraram.

“E adoram!” – berrou o Cheddar meio que desesperado.

“Ele está buscando as novas gerações meus caros. Quem pede hoje recheio de Aliche? E Atum? E Escarola? Só a velha-guarda. As crianças de dez anos atrás hoje são jovens com o Catupiry incorporado em seu paladar, claro que percebem com o tempo que o lugar de frango é na churrascaria, mas o Catupiry os acompanha e eles vão criando novos recheios: calabresa com catupiry é hoje um recheio popstar!

“O sabor Toscana é meu! – gritou Mussarela.

“Era Mussarela. Calabresa moída hoje vai mais com Catupiry, desculpe a verdade.” – Mussa abaixou a cabeça e assentiu com a afirmação. Não queria escutar aquilo, há tempos percebia que estava sendo trocado. “O frango é uma isca poderosa para as crianças, é genial, é brilhante! Criança gosta de coisa insossa! É preciso admirar seu adversário acima de tudo!”

“E tem outra” – Gruyère tomou a frente “Quem foi o pioneiro em ir do recheio para a borda?” – todos se entreolharam embasbacados. “Outra tática fantástica! Catupiry invadiu as bordas e virou sinônimo de borda recheada.”

Queijo Prato, tímido como ele só, levantou a mão. “Eu gosto do Catupiry”.

“Seu idiota!” – berrou o insolente Camembert. “Depois reclama que você só entra em tábua de frios! Nem como queijo aperitivo você é visto mais, isso que dá ser um sujeito tão bom assim, tão bom coração”.

E era a mais pura verdade, como era dócil e bom aquele Queijo Prato! Tinha potencial para concorrer com a Mussarela, mas ele era amigo de todo mundo, ingênuo, sem inimigos, quando alguém ficava em dúvida entre ele e a Mussarela, ele meio que se omitia porque achava que não era bom o bastante. Queijo Prato subestimava si mesmo. A bondade lhe foi um golpe poderoso, virou sinônimo de frios. No começo ainda flertava só com o Peito de Peru, o Lombinho, mas quando se envolveu com a Mortadela, foi o estopim para ser considerado um queijo do povo e nada mais. Queijo Prato só queria amar e ser amado.

Em meio à discussão, as portas da sala de abriram. Mediram os presentes do pé a cabeça, até queijos como Camembert, Roquefort e Gruyère. Eram eles: Emmenthal, Tofu, Morbier, Blue Stilton e Manchego.

“A turminha dos descolados.” – sussurou Brie para sua amiga Ricota, que já estava de volta.

“Ficamos sabendo desta reuniãozinha” – disse o folgado Morbier

“Não receberam meu comunicado?” – Roquefort era patético, odiava esta turma do fundo de seu coração e era covarde na frente deles. Mas tinha uma explicação: seu relacionamento com a deliciosa Emmenthal, que hoje andava nos braços do forte Blue Stilton.

“Este tal de Catupiry nos interessa também” – argumentou Tofu, um queijo que irritava a todos. A começar pelo fato que era feito de leite de soja, patético. E por causa disso, se achava versátil e saudável. Mas o fato era que tinha história, foi inventado pelos chineses há mais de dois milênios e nos últimos anos com a onda natureba cresceu e ganhou definitivamente seu espaço no mundo ocidental.

“Volta pro Misoshiro!” – Parmesão exaltou-se. “Você não tá em pizza, não tá em massa, não tá em salgados, muito menos em doces, só te vejo cru, no máximo defumado, e em cardápios orientais. E que gostinho vagabundo é este seu hein! Dá a mão pro Cottage e sai andando!”

O clima esquentou, a Mussarela começou a derreter de raiva também, tinha um ódio mortal do Tofu, que dizia que era a Mussarela do Oriente.

“Parem!” – Emmenthal pediu a palavra, antes bisolhou a embalagem da Brie e da Ricota e, sabendo que estava muito mais encorpada, apesar de um pouco furada, sorriu com desleixo para as duas. “Quem ficou sabendo desta reunião fui eu, nada como embebedar um queijo xucro, não é Coalho? Pois bem, viemos aqui, pois temos uma sugestão interessante contra esta dominação do Catupiry. Afinal, somos quase todos aqui queijos mundiais e quem é Catupiry no mundo?”

“Tem muito país por aí que anda usando Catupiry” – alfinetou Gruyère. A birra de Gruyère com Emmenthal era tanta que queria fatiá-la ao meio! Tudo por causa de um pé na bunda que a saborosa Emmenthal lhe deu. Bem nele, considerado pelos suíços “o rei de todos os queijos”.

“Mas ele ainda não é nada, querido. Nossa proposta é um jeito de barrar isso de vez: nos unirmos para criar um superqueijo poderoso.”

“Como assim?!” – Cheddar babava de prazer súbito.

“Imaginem um queijo com todas nossas propriedades? Um paladar como nenhum outro, numa mesma mordida você tem a leveza da Brie, a cremosidade do Mascarpone, o refinamento do Camembert, a presença marcante do Parmesão e do Provolone, a brasilidade latente do Coalho, Meia-Cura e Minas, a pureza do Queijo Prato, a familiaridade da Mussarela, a boa estranheza do Gorgonzola, o imperialismo do Cheddar, a bruteza do Blue Cheese…” – e assim foi Emmenthal conquistando todos seus ouvintes, um a um, adjetivando-os de forma sublime e irresistível. Quando terminou, estavam todos prontos para qualquer coisa pelo tal do superqueijo.

“Esta nossa superunião, este superqueijo vai ser único e onipresente. Como um queijo insosso e brega como o Catupiry pode competir com algo destes? Vamos acabar com ele!” – se excitou Cheddar.

E então convocaram todos os tipos de queijos deste mundo: Tilsit veio especialmente da Rússia, Saint-Paulin pegou o primeiro vôo da França até aqui, o argentino Montanhês também apareceu, até o petulante Maasdammer veio da Holanda. Todos contagiados pela idéia de deter Catupiry, de suprimir suas forças cremosas. Ascenderam finalmente a fornalha e entre urros de alegria e esperança, pouco a pouco se derreteram todos formando uma massa uniforme e poderosa. Foi ai que apos alguns minutos de silêncio absoluto, a massa amarelada e cremosa rugiu.

E lá do alto de seu palácio, Catupiry ouviu o som amedrontador que vinha lá de baixo. Virou para Polengui, seu fiel escudeiro, e ordenou “convoque nosso exercito, a hora chegou!”.

“Philadelphia, Requeijao, Queijo Cremili, Babybel, La Vache Qui Rit e tudo de mais cremoso nesse mundo?” – questionou Polengui.

“Todo mundo, convoca até aquela novata delicia, a Burrata.”

O que o mundo estava prestes a ver seria então a maior e mais devastadora guerra de todos os tempos. Preparem seus coraçoes porque a batalha vai começar. E você, de que lado está?

7 Responses to “A revolta dos queijos”

  1. Sensacional, meu chapa. Pombas! Senti falta dos queijos dos meus patrícios.: Amarelo de Picante da Beira Baixa, Azeitão, Cabra Transmontano, Castelo Branco, Envendos, Évora, Idanha, Nisa, Pico, Tomar, Mestiço de Tolosa, Terrincho, Rabaçal, São Jorge, Serpa e meu preferido, Serra da Estrela. Ganhei uns três quilos só de escrever os nomes. Haja imaginação. Parabéns

  2. Incrível! Uma delícia de ler…. Sorrisinho contido durante toda a leitura, com algums momentos de gargalhada!!! Passei o tempo todo pensando na burrata e eis que ela surge no desfecho! Baita vontade de devorar uns nacos de queijo! Parabéns Gustavinho!

  3. Incrível seu texto, Gustavo. Admiro seu talento com as palavras….

  4. Sensacional Gringo!!! Demais o texto.

  5. marcelo alves Says:

    Guga, praticamente um “ligações perigosas” com desfecho de blockbuster hollywoodiano… vc passa mal meu querido! muito bom!

    • sujoebarato Says:

      Marcelao, esse ano sai o “Treta na padoca”. Quando Seu Manoel fecha as portas da padaria, a treta começa: salgado x doces, frios x paes, hahahha!

      • marcelo alves Says:

        mas cuidado ai guguitas… os frios vão muito bem nos pães, seriam aliados, malandro… e o gélido canadá? não lhe proporciona nenhuma ideia de embates gastronomicos meu querido?

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