Bexiga vazia

Desde sempre tinha algo errado com o Manuel, um desbalanceio precoce com esse mundo. Nasceu pré-maturo, berrando, injuriado. Logo cedo, sarampo e catapora. Com 5 anos já tinha os dedos comidos por frieiras. Com oito, micose na unha. Com dez, gastritre. Com doze, já fazia parte da turma do refluxo e com quinze, teve a primeira úlcera. Com dezoito, já tinha o corpo inteiro baleado. Manuel nunca procurou ajuda nem ninguém quis ajudar, sua mãe morreu no parto e seu pai era um vadio itinerante. Foi criado pela dor de ser só. Ele sabia que seu problema era mais sério, algumas pessoas ficam deprimidas, outras o corpo responde fisicamente. Nunca foi um cara triste, nunca foi um cara reclamão, levantava cedo, dava um sorriso cheio de cáries no espelho e ia para a labuta cheio de dores. Cheio de gases. O problema começou a piorar na adolescência e se tornou quase que insuportável na vida adulta. Aos treze se assustou com uma pontada firme no coração, achou que ia morrer. Foi no médico pela primeira vez, fez exames, ouviu o doutor dizer barbaridades, mas não tinha nada de errado com o coração. Era apenas um cardume de gases que nadava sem rumo dentro dele, batendo aqui e ali, dando trombada em tudo quanto é lugar. Aprendeu a conviver com a dor no coração e com a triste idéia de que não ia morrer tão cedo. Os amigos diziam que ele tinha algum tipo de alergia a alimentos, que deveria parar de comer gordura. Se parasse de comer carne, fumar e beber, ai é que não aguentaria o tranco. A ressaca era necessária, o fazia lembrar que ontem foi um dia melhor.  Com o tempo, Manuel passou a gostar dos seus gases, se achava um ser abençoado. Quando a coisa estava preta, um peidinho sempre deixava tudo melhor. Era sua válvula de escape para tanto sofrimento. E sofria mesmo. Para aliviar, cagava três vezes ao dia e peidava pelo menos cem. Assim ia levando, atenuando a dor de nascer esse ser errante. Ja não escondia mais de ninguém, Manuel « o peidoqueiro » ganhou fama. Por onde andava ouvia piadas  e por isso então, por onde passava fazia questão de deixar um rastro de cheiro de merda. Não teve mulher, só se engraçava com putas. Não queria filho, não queria perpetuar sua espécie, não queria um outro merda por ai. Levou a vida aos trancos e barrancos e aos solavancos, o corpo cada vez mais dolorido, a dor cada vez mais embutida. Em uma segunda-feira qualquer, porque não poderia ser outro dia, dia de merda, um velho e combalido Manuel acordou, preparou o café e fumou um cigarro. Sentiu uma pontada no coração e se praparou para soltar um peidinho, o primeiro do dia. Mas o pedinho não veio, foi o coração quem parou. E assim Manuel subiu aos céus em velocidade máxima como uma bexiga que esvazia no ar.

3 Responses to “Bexiga vazia”

  1. Sensacional! Me deu até vontade de peidar. Hehe! Vou logo ali e já volto para relê-lo. Baita talento! Tirar um texto desses da mais pura merda… KKK!
    Grande abraço,
    Gabriel

  2. Cara! Que bom te ler! Vc é o mestre indiscutível dessas parabolinhas bem bem bem significantes pra gente, hehehe. Adorei.

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