Vice-versa

Vice-versa

Algumas pessoas estão definitivamente mais preparadas para esse mundo. Outras não, pelo menos não do jeito que o mundo é. Enfim, isso separa a turma toda em dois times, os que sofrem mais e os que sofrem menos. E é claro que nada é assim tão simples: cada time tem também suas subcategorias, tem os que sofrem menos dentro do time dos que sofrem mais, tem os que sofrem mais dentro do time dos que sofrem menos. Tem gente que vira a casaca no meio da vida, tanto de um lado quanto do outro. E assim vai, complicando, gente chutando de direita e de esquerda, com os dois pés, de bico e colocado, embolando o meio-campo.

Você sabe de qual time faz parte? Provavelmente sim, é só buscar na memoria. Se você é daqueles que não sofre, que leva a vida na boa mesmo à frente das incoerências e abusos desse mundo, provavelmente você era aquela criança que arrepiava todo mundo no War, Banco Imobiliário e Detetive. Já os sofredores, do outro lado, piravam no Jogo da Vida, Cara a Cara e Imagem e Ação.

No Pega-Varetas, o não-sofredor era obsessivo pelas varetas pretas, aquelas que valiam mais pontos, enquanto o amiguinho sofredor morria de medo de fazer o amontoado mexer a cada jogada. Ele mais sofria do que curtia a brincadeira. No baralho, arregalava os olhos quando jogava Burro num nervosismo constante para baixar de vez as cartas, não importa quem ganhasse. Já o não-sofredor ficava puto se não baixasse primeiro. E quando baixava, fazia aquela arruaça. É o mesmo sujeito que hoje adora gritar “marreco” na orelha dos outros numa mesa de truco.

No Atari, enquanto o sofredor se divertia com o Keystone Kapers, aquele jogo bobinho e divertido do bonequinho que pulava carrinhos de supermercado, o amiguinho não sofredor só queria saber de atirar em tudo que via pela frente no River Raid. O sofredor se divertia jogando bolinha pra lá e pra cá no Pitfall, o não-sofredor acelerava fundo e ultrapassava tudo no Enduro. Esse ai, alias, é aquele que comia tudo no Pac-Man e ainda dava um baile nos fantasminhas. O sofredor saia correndo, comia o que podia e sempre era pego no final.

Lembra da Caverna do Dragão? Então, o sofredor concordava com o Bobby de nunca deixar a Uni, já o não-sofredor ficava puto da vida com o baixinho marrento que fodia com o resto da turma e não deixava ninguém ir pra casa. O sofredor desconfiava até do Mestre dos Magos, o não-sofredor se perguntava porque eles nunca aceitavam as propostas tentadores do Vingador. E também ficava nervoso com o porra do Geléia, sempre fazendo bobeira, sempre atrapalhando a missão dos Caça Fantasmas. O sofredor era do time do Scooby e do Salsicha, o não-sofredor também gostava mas confiava nos palpites do Fred e da Wilma. Alguns sofredores acabavam se identificando demais com o Príncipe Adams, coisa de bater na alma mesmo. E na contrapartida, alguns dos que não sofrem nada só queriam ver o He-Man sentado no gato guerreiro dando bofete por ai afora. Coisa engraçada, sofredores ou não, hoje fazem parte de um mesmo time…

Não me entendam mal, afinal tanto o sofredor quanto o não-sofredor podem ser excelentes pessoas, a questão é mais de perspectiva do que outra coisa. Por exemplo, quem hoje sofre demais, torcia para o Papa-Léguas nunca ser pego. Quem hoje sofre de menos, torcia para Coiote se dar bem. E no mundo de hoje quem se deu bem foi mesmo o Coiote, não foi? Os dois, aliás, torciam pelos planos do Cebolinha dar certo, mas o sofredor logo se enjoou das historias quando se tocou que eles nunca iam dar certo. Passou logo pro Tio Patinhas.

Razão x coração? Dureza x sensibilidade? Nada disso, todo mundo tem os dois. A balança é o indivíduo.  Alguns vão estar sempre na festa desse mundo, felicidade rodando, sangue nos olhos, reb bull na mão, quando a peteca dá sinais que vai cair, toma um tapa de pelica e volta pro ar. Depressão, tristeza? O caralho! Joga uma água na cara e continua. Outros vão se deixar levar pela melancolia, pela solidão, pelo grito íntimo que bate em todos os peitos desse mundo. Alguns nunca entenderão os outros, os outros nunca entenderão alguns. E vice-versa.

3 Responses to “Vice-versa”

  1. Perfeito! AHLIVARAM e vice-versa.

  2. Muito bom Gugá!! Eu estou no time dos que sofrem menos, mais entre todos deste time, sou a q mais sofro!!!!!!!O sofrimento gera inquietude e está com sorte gera mudanças!!Bjs!! Bom jogo.

  3. Ha,ha, ha! Nao tenho duvidas de que lado estou!!!

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