Treta na padoca

Quando Seu Manoel fechou as portas da padaria, mal sabia ele que o tempo ia fechar lá dentro. A porta bateu, a chave virou e o silêncio foi abruptamente interrompido por um grito lá do alto da bancada “Aê bando de playboy! Vamos acertar as contas !”. Era ele, o Ovo Colorido, junto de seus fiéis escudeiros Tremoço, Torresmo e Amendoim.

Ali ao lado, na área dos salgados, a coisa andava dividida. Tinha a turminha das antigas que apoiava o Ovo Colorido e a outra, que bradava mudanças. “Nós tâmo juntos, irmão!”- berrou Croquete, o mano dos salgados, sujeito casca grossa. Bolinho de Bacalhau, Enrolado de Salsicha, Kibe Frito, Coxinha, Esfiha de Carne, Coxa Creme, Pão de Queijo, todos eles gritaram juntos.

Era a turminha das antigas, salgados que dominaram por anos a fio o menu de padarias e botecos. Bolinho de Bacalhau era um velho português ranzinza, tinha princípios, lutava para garantir sua qualidade primorosa. Mas quando os preços inflacionavam, ele não vacilava : fazia um bem bolado e coloca batata no recheio para continuar no mercado. Coxinha era quase uma senhora, rodada mas ainda bem apreciada. E nos últimos anos, em busca de rejuvenescimento, injetou catupiry no corpo. Ficou uma delícia. A prima feia dela era a Coxa Creme, chegou até a arrancar algumas mordidas por ai, mas era de fato uma baranga daquelas.  Já o Enrolado de Salsicha era o famoso quitute garanhão, um come quieto: todo mundo diz que não dá muito bola pra ele, mas tá na boca do povo, tem massa, tem carne, tem tudo. Virou até produto congelado, um superstar da criançada, sempre no carrinho de compras das donas de casa.  Está sempre nas festinhas ao lado da Coxinha e do amigão Pão de Queijo. Pão de Queijo, aliás, ainda era o Rei dos salgados. Não era o lider da turma por opção, mineiro tranquilo, mas era um articulador feroz. Liderou o movimento dos congelados na década de 90, mudou o mercado dos salgados. Foi o primeiro a ter uma franquia com o próprio nome. Pão de Queijo era o sujeito sociável, transitava em qualquer classe social. E tinha a turma dos libaneses, Kibe Frito e a família Esfiha, liderada pela autoritária Esfiha de Carne.

          Vai começar a putaria? – respondeu o Folhado de Palmito ao Croquete.

A turma do contra vinha forte : Bolinho de Risoto, Bolinho de Aipim, Folhado de Espinafre, só para citar alguns. Era aquela turminha dos novatos, playboyzada encrenqueira, que crescia sem parar, dominando o balcão de padarias, inflacionando o preço dos salgados.

A família Risole é que parecia meio dividida, mas o patriarca, Risole de Carne, deu logo um esporro geral e chamou todo mundo pra briga “Vamos lembrar que recheio não vale nada, nasceu Risole, é Risole até a morte!”. Os filhos mais novos é que pareciam querer divergir do Pai, principalmente o caçula, o tal do  Risole de Camarão com alho poró. Mas Risole de Carne era um cara duro, severo, quanto mais nervoso, mais frito, mais indigesto. Risole de Carne tinha o controle da sua situação. A família Empada era outra em conflito : a Empada tradicional de Palmito flertava com o Ovo Colorido enquanto a Empada de Camarão, Catupiry, Tomate Seco e Carne Seca se aliciavam cada dia mais com a facção dos playboys.

          Vocês estão querendo gorar a nossa tradição, rapaziada? – bradou o Ovo Colorido. E ainda deu uma chamada na galerinha dos doces – E ai Pé de Moleque, de que lado vocês estão, mano?

Pé de Moleque era um sujeito temido na padaria. Seu insucesso com crianças, após a invasão de chocolates e doces industrializados nas padarias, gelou seu coração. O que era feio, agora era horrível. Um Pé de Moleque seco, esturricado, pronto para uma dor de barriga daquelas. Tinha uma birra forte com o Charge da Nestlé, mas a treta ultrapassava os limites da padaria : Pé de Moleque ainda temia o poder das corporações. Eles sempre se estranhavam ali na região do caixa, mas aquela área era dominada de gente graduada : Choquito, Prestígio, Milkbar, Twix, Kit Kat, Sufflair, gente que vinha embalada, em papel brilhante, mal intencionada, pronta para acabar com as tradições, cópias umas das outras, um exército, vinham em bando para aniquilar com tudo o que era artesanal. Pé de Moleque torcia por uma reformulação de espaço, queria ser transferido da região do caixa para onde estavam seus verdadeiros amigos : Quindim, Queijadinha, Cocada, Maria Mole e Suspiro.

          Aqui é tradição! – Pé de Moleque respondeu certeiro. E junto a ele levantaram todos seus fiéis amigos. E também Paçoca, sua esposa, e Teta de Nega, amante de longa data. Pobre Teta de Nega, nunca a primeira opção de ninguém.

          Tradição é coisa de velho! – respondeu o lider dos Petit Fours, biscoitinhos amanteigados de tradição francesa que adoravam uma discussão, sempre revoltados e prontos para uma briga. Os doces sírios e libaneses, récem chegados nas padarias, foram subitamente convencidos pelos franceses malvados. Nem Kibe Frito e Esfiha de Carne conseguiram convencê-los.

É, a coisa estava feia. A richa entre tradição e modernidade na padaria era historia antiga, rivalidade famosa. A velha guarda da padaria é que tentava apaziguar os ânimos, se reuniam em conselhos secretos durante a noite para um plano de ação.  Queriam a paz, velavam a harmonia. Mas a velha guarda andava sumida das padarias hoje em dia, tinham definitivamente perdido força de opinião, afinal tinham virado sinônimo de boteco : Rabada, Salsicha no Molho, Fígado Acebolado, Língua de Boi, Joelho de Porco, Frango a Passarinho, Bisteca, poucos deles restavam naquele ambiente que se rendia aos enfeites da nova baixa gastronomia. A velha guarda hoje estava sendo substituída pouco a pouco pelos comparsas da playboyzada, coisas mais refinadas : Filé Mignon Aperitivo, Carne na Cerveja Preta, Escondidinho, Picanha de Panela, Ossobuco, Camarão ao Creme,  entre muitos outros. Quando Seu Manoel sacou o Frango a Passarinho e a Bisteca do cardapio, banidos para sempre, Ovo Colorido sabia que seus dias estavam contados. Era o momento de fazer alguma coisa : lutar ou morrer.

Estava tudo embolado : doce e salgado contra salgado e doce. Quem ainda não tinha tomado partido era melhor decidir logo, a pressão aumentava, a tensão ebulia naquela padaria. Era o caso da família Pastel, quitute que veio da classe mais pobre e virou febre entre ricos e famosos também. Melhor era ter ficado na feira, mas o sucesso subiu a cabeça, chamaram novos ingredientes, mistura aqui, mistura ali, uma baita suruba de sabores que resultou em recheios pomposos, refinados.  Pastel de Carne, Pastel de Queijo, Pastel de Pizza era coisa do passado. Agora era Pastel de Angu com Carne cortada na faca, Pastel de Frango com Catupiry, Pastel de Mussarela com Manjericão e tomate cereja. Carne, Queijo e Pizza estam ali, nos bastidores, tirando seus corpos do oléo quente e criando seus pequenos filhotes deliciosos. Eram uma instituição, um corpo fechado. Não tomavam lado nenhum, mas quem ganhasse teria com certeza seu apoio e bajulação. A família Pastel dançava conforme a música. Ludribiavam o povo com o lema “Dinheiro de otário é festa de malandro”.

A história toda ficava ainda mais complicada com as turmas restantes : os Frios e os Lanches. Eram turmas que andavam de mãos dadas, afinal o que era um Misto-Quente sem presunto? Os Frios tinham os Lanches na palma da mão. Na verdade, um dependia do outro. Presunto sozinho hoje não sobreviveria por muito tempo: um dia Rei, hoje sinônimo de coisa gorda. Mas no Misto, ninguém quer Peito de Peru, entende?  Onde uma turma fosse, a outra ia atrás. Mesmo com a chegada de frios mais chiques e caros, como o Prosciutto e o Queijo Gouda, a turma dos Frios era bem unida. Ninguém levava 200g de Prosciutto para casa. Levava 50g no máximo pra tirar gosto, e o resto era Mortadela, Presunto, Lombinho e Peito de Peru.

Diziam as más línguas que quem tivesse o apoio dos Frios e Lanches ganharia a briga. E na turma dos Lanches, inclua os Sandubas de Metro. Tinha muita gente ali dentro. A balança ia pesar mais para um lado do que para o outro, certeza. Quem também poderia fazer a diferença eram as Pizzas. Elas não ligavam muito de estar ali na padaria, afinal existiam as pizzarias, ambiente exclusivo delas. As Pizzas estavam ali para tirar um barato : Pizza de Mussarela, Portuguesa e Calabresa estavam sempre lá, era o descanso da patronagem italiana, aonde os líderes dessa deliciosa máfia se reuniam para elaborar planos de expansão em pizzarias, discutir novos sabores, novos experimentos, de vez em quando matavam umas Empanadas que se metiam a rivalizar com o Calzone.

Ovo Colorido pegou uma baguete na mão e urrou em alto e bom som “Venham companheiros, vamos nos armar!”. E o bando se juntou a eles. Do outro lado, Folhado de Palmito reuniu sua gangue. E no meio da baderna, a família Pastel, Frios, Lanches e Pizzas assistiam aquilo de olhos atentos. Outro que parecia não saber o que acontecia era o Sonho, sujeito com a cabeca sempre nas nuvens. Vacilão, uma hora ia rodar. As putinhas corporativas; chocolates, balas e doces, riam do alto de seus camarotes. Dava pra ver o sorriso do Mentex brilhando de longe, Azedinho e Doce coletava o dinheiro das apostas, até o Guarda-Chuva da Pan estava por ali, contando e rindo de suas velhas histórias com o Cigarrinho de Chocolate, falecido amigo. Os Pães, atrás da bancada, tremiam de medo. E foram usados como armas : Broa virou escudo, Baguete virou espada, Pão Francês virou granada, Pão de Forma virou barricada. Lá no centro da padaria, os Bolos torciam pelo final mais doce possível, eram muito meigos para entrarem em qualquer briga, só as Cerejinhas que saltitavam serelepes no alto das coberturas torcendo para o circo pegar fogo.

O calor da tensão iminente fervia lá dentro. E começaram a voar pães de um lado pro outro, as duas facções ligaram os fornos, pães franceses saiam de baciada, estavam todos armados até os dentes. A guerra se instalou e varou a madrugada, a cada momento uma parte avançava, outra hora recuava. Urros, berros, gritos, guerreiros de caras pintadas. Foi no meio da bagunça toda que alguém assoviou forte e gritou “Seu Manoel!”. As partes recuaram, se reinstalaram em seus devidos lugares, mas a zorra era nítida : migalhas e farelos por todo o chão, em todas as bancadas. Quando Seu Manoel entrou e acendeu a luz, gritou de pavor. E algum desavisado que ainda lutava em vão arremessou uma baguete na cabeça do patrão. Seu Manoel caiu duro no chão. Acordou acorrentado com a parede pichada de geléia de morango, cor de sangue “É treta na padoca!”.

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