Archive for the Dirty Sheep Originals Category

Late, mas não morde

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , , on July 29, 2014 by gugagessullo

Mulheres, quem nunca de vocês chegou em casa e se deparou com uma cueca suja largada em um canto da casa? Uma calça usada, uma camisa, uma camiseta, uma meia, um sapato? Quem aí nunca chegou no quarto e encontrou uma toalha molhada em cima da cama? Quem nunca de vocês chegou em casa louca para ir ao banheiro e encontrou o assento com respingos de urina? Respingos e perdigotos até no chão? Antes de ficarem histéricas e se aglomerarem em um motim contra a nossa raça, vamos olhar para a natureza, vamos olhar para os cães.

Antes de tudo, é importante saber que existe uma diferença entre o ato de urinar por uma necessidade fisiológica e o ato de urinar com o fim de marcação territorial. A marcação de território é um comportamento instintivo dos cachorros. Ao marcar território sua intenção é enviar uma mensagem subliminar para os outros seres que habitam a região. Essa mensagem pode ter múltiplos significados, podendo ter o objetivo de deixar claro sua dominância na região, de indicar disponibilidade sexual (sério!), de mostrar frustação ou indignação.  A marcação de território também cumpre papel na construção da autoconfiança canina. Se o seu cachorro está inseguro, por exemplo, é possível que ele venha a urinar pela casa.

E agora aos fatos: homens tem personalidade canina. Nós gostamos de marcar território. A simples compreensão desse fato pode salvar um relacionamento. Não é que queremos provocar, irritar ou fazer birra. Não é displicência ou rebeldia. O engano está aí. É uma forma de expressão instintiva inconsciente. Você chega ao banheiro e vê tudo rosa e perfumado, toalhas limpas e cheirosas, um ambiente predominado pela influência feminina. Mijar para fora da privada é como um grito interno não intencional de dizer “Chega de rosa!” ou “Vamos colocar um pouco de sujeira aqui!” ou “A vida não é toda perfumada assim, porra!”. É uma maneira de demonstrar que o ambiente também é seu e de expressar seus verdadeiros sentimentos masculinos reprimidos pela moral social dos dias de hoje. A urina canina se replica ao homem, que também estende o conceito para objetos largados pela casa. Fácil assim. Afinal, somos seres animalescos dotados de muito mais testosterona e ensinados erroneamente desde crianças a sermos fortes, provedores, predadores e dominantes. Por mais que não queiramos isso. Somos obrigados socialmente e pressionados psicologicamente desde filhotes, seja na escola, na família, na religião, nas novelas, nas séries e nos filmes. O residual que ficava em nossas mentes quando o Van Damme chutava todo mundo e saia furioso e realizado com uma linda garota na garupa de sua moto era que ele havia finalmente marcado seu território e conquistado sua fêmea. Ou seja, mijou por todas as partes durante o filme inteiro.

As manias do homem que vocês odeiam, é culpa de uma mistura complexa entre instinto e bagagem histórica. É como nossa fixação por churrasco. Olhem os índios. Lá trás, nos tempos mais remotos, saíamos para caçar para prover alimentos a nossa comunidade. Pintávamos os rostos e colocávamos nossas roupas especiais. Quando estávamos lá, na selva, todos juntos enfrentando perigos, doenças e outras adversidades, nossa raça encontrou uma maneira de se auto recompensar. Antes de voltarmos com os javalis para a comunidade, todos arranhados, cansados e abatidos, nada mais justo do que assar um javali inteiro para nós mesmos. Longe dos problemas das esposas e dos filhos, estávamos todos lá curtindo uma carne assada e tomando ayuasca. Felizes, livres, bêbados e com a barriga cheia. Voltávamos serenos, tranquilos e prontos para encarar o dia-a-dia da tribo. O churrasco, portanto, é quase um rito tribal masculino.

De fato, a única maneira de entender o presente e prever o futuro, é olhar para o passado. E tentar enxergar no seu homem, o cãozinho, o indiozinho e outras criaturas que existem dentre dele. Somos um mosaico de seres e comportamentos. E mesmo pulguentos e impossíveis de adestrar, seremos companheiros e dóceis. Porque no final das contas, como cachorros inseguros que somos, sentaremos e daremos a patinha sempre, quando vocês bem entenderem.  Nós só latimos, nada mais.

MANIFESTO DA BUNDA CANSADA

Posted in Dirty Sheep General, Dirty Sheep Originals with tags , , , , on July 24, 2014 by gugagessullo

Existem coisas que evoluem, existem coisas que regridem. E existem coisas que se mantêm intactas. É o notório caso do papel higiênico. Não que ele não tenha evoluído, o papel ficou mais liso, a textura mais amena e gentil, hoje tem até perfume – lavanda, flores do campo, jasmim, begônia silvestre, escolha o seu. Nossos avôs, esses sim sofriam, lixavam as bundas enquanto você fica limpinho e cheiroso. Se meu avô usasse o papel que eu uso, ia assoviar de felicidade. Se eu usasse o do meu avô, eu urraria de desespero. Viveria com brotoejas permanentes, a famosa bunda empipocada cheia de talco. Porque antigamente criança sempre tinha a bunda empipocada, eu lembro da minha. Hoje eu duvido. É tudo lisinho, sem feridas ou esfoliações. Estamos criando pequenos monstrinhos de bunda lisa mal acostumados e mal preparados para esse mundo cruel. Quando mais cedo sangra a bunda, menor o impacto da decepção.

Quem aí beirando os 35, 40 anos não se lembra daquele papel higiênico rosa? Sim, o papel Primavera. Vinha com essa lengalenga no nome, prometendo flores e te lixava todo, ferrava com o resto do seu dia. Hoje, o lixa-rosa é uma espécie em extinção, recluso a restaurantes de estrada, botecos e pé sujos. É no máximo vintage, daqueles que você encontra na casa de alguém supostamente descolado. Sim, convenhamos que o papel evoluiu. Mas apesar de uma evidente evolução do papel lixa-rosa aos dias de hoje, o papel continua papel, isso nunca mudou. Pode ter mudado muita coisa, mas ainda é papel. Eu queria algo revolucionário. Algo fora da caixa. Até tentaram o bidê, uma invenção equivocada, aquela ducha anal desnecessária. Para aqueles meninos com opções sexuais não ortodoxas, ai sim o bidê funcionava. Não era uma ducha desconfortável, era o chafariz da felicidade, o esguicho das sensações, a cascata da descoberta. Fazia mais do que uma ingênua coceguinha. Até tentaram o chuveirinho, que espirra merda pelos quatro cantos. Bunda limpa e banheiro repleto de coliformes fecais. Quem gosta de chuveirinho, me desculpe, mas teria de ser eliminado desse mundo. Com certeza é o sujeito que caga e adora deixar rastros para os outros limparem. Fora o fato de que o chuveirinho requer uma toalhinha. Quem fica carregando uma toalhinha na mochila ou na bolsa? Ou você tem uma toalhinha na casa da sua mãe, da sua avó, no escritório? Toalhinhas espalhadas pelos seus banheiros favoritos. Chuveirinho só funciona em casa e mesmo assim, com efeitos colaterais. Não resolve o problema.

Mas não estamos aqui para menosprezar o papel higiênico. Eu gosto dele. Ele participou da minha infância, da minha adolescência e participa ativamente da minha vida adulta. Sem o lixa-rosa, não estaria preparado para esse mundo. E só por conta dele, agradeço todos os dias o conforto de um dupla folhas cheiroso e bondoso. Tenho a bunda suficientemente calejada para falar a respeito. E respeitar esse meu amigo, meu companheiro. Ele foi de fato a última grande invenção na higiene pessoal. Mas como todo período pós-revolucionário, vivemos uma estagnação completa, com doses homeopáticas e mentirosas de uma evolução vendida em comerciais.  São como as escovas de dente, que só mudam o design das cerdas.

Fato é que os cientistas anais se cansaram, se acomodaram completamente, só posso concluir isso. Até o surgimento do papel, evoluímos com louvor. Depois dele, pisamos no freio. Porque antes de 1928, amigo, os gregos usavam pedras ou argila. Os romanos, esponjas embebidas em água salgada. Os árabes, a mão esquerda, considerada impura. Outros povos usavam folhas de maçarocas, penas de aves, relva, trapos, cascas de mexilhão, folhas de plantas e por aí vai. No Brasil, as pessoas costumavam fazer a sua limpeza com folhas de alface, água e sabugos de milho. Se hoje estamos com as bundas cansadas de tanto passar papel, o que nos resta é olhar para os primórdios e agradecer pelo papel lixa-rosa. Porque papel Primavera nesse contexto histórico é luxo.

Eu sei que morrerei sem ver tal revolução. Os cientistas migraram para outros mercados, estão pensando no próximo modelo de celular. O que me resta, como para todos nós, é envelhecer usando e abusando do papel até que, gagás, passaremos a usar lencinhos umedecidos. E voltaremos a ser crianças, mas dessa vez com o bumbum liso e cheiroso.

Mãos a obra!

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , on February 9, 2012 by gugagessullo

 

Cagar é um ato intimo, uma coisa sua, um mundo secreto e intocável. O que você faz lá dentro de verdade, ninguém sabe. A não ser que você decida dividir isso e cagar de porta aberta. Não é meu caso, para mim cagar de porta aberta é o principio do fim do relacionamento. Fico imaginando situações hipotéticas, eu ali no trono com a porta escancarada debatendo assuntos familiares com minha esposa, decidindo as próximas férias, assuntos banais meramente importantes de um casal. Você se limpa na frente da sua esposa naquele ato grotesco e animal que todo mundo conhece e depois vai pedir beijinho? Não da! Toda a paixão, carinho, amor, qualquer tipo de afeto vai junto com a descarga. A partir da primeira cagada de porta aberta, as brigas ficarão mais intensas, as rusgas mais severas. Conselho: se você realmente ama, preserve a cagada intima. Se você esta louco para arranjar motivos para pular fora do relacionamento, escancare a porta mesmo. Às vezes isso é até um sinal de uma das partes, fique atento.

 

Bom, tem gente que caga rápido, outros demoram. Uns gostam de ler, outros de mexer no celular. Você nem imagina, mas a Claudinha, aquela baixinha gostosa do seu trabalho, acabou de postar uma foto dela de biquíni enquanto estava cagando. Porque não? Outros decidem telefonar para amigos, bater um papo. Você escuta aquele eco e se questiona “será que o Marcinho esta falando comigo e cagando ao mesmo tempo?”. Mas você erradica esse pensamento da sua cabeça e segue em frente na conversa. É no “Até mais” que o Marcinho vacila, se apressa  e aperta a descarga antes de desligar. ”Filho da puta!”. É, concordo. Para alguns cagar é um ato de sacrifício, seres amaldiçoados com o intestino preso. Tem pouca intimidade com a privada, se sentam já na obrigação de fazer qualquer coisa. É muita pressão, são dias, semanas sem uma cagadinha, isso reflete na auto-estima, na pele, no humor. Às vezes, um peidinho já é lucro.  Tem também a turma da oposição, já acordam com o charuto apagando na cueca, batem o ponto mais uma vez chegando ao trabalho, e podem rolar ainda outras durante o dia. São pessoas comuns, como eu e você, só que tem a felicidade de não guardar nada. Uns terão ataque do coração aos 40, outros cagarão três vezes ao dia e viverão até os 80 anos. É a vida. Tem aqueles que são viciados pela leitura não-informativa, aquela que não agrega nada: rótulos de shampoos, desodorantes, perfumes. Como você pega ele no flagra? O sujeito sai do banheiro e esquece o shampoo no chão ao lado da privada. Depois de meia hora, esta numa roda de mulheres palestrando sobre a composição do novo condicionador da Nívea « Meninas, esse ai tem muita química, cuidado ».

 

Tem gente que só caga pelado, tem gente que só caga em casa, tem gente que só caga se depois rolar um banho. Nada de bidê, uma ducha mesmo, serviço completo. Tem aqueles que adoram olhar o trabalho depois de feito, ficam felizes “Espelho, espelho meu, quem no mundo caga mais do que eu”. Tem aqueles que adoram lugares públicos. É o cara que esta sempre com perfumes diferentes no corpo: um dia ele aparece com aroma de laranja, no outro de lavanda, no dia seguinte flores do campo. O cara cheira a odorizador de banheiro. Tem aqueles mais loucos, curtem a adrenalina da cagada perigosa, entram no banheiro torcendo para não ter muito papel “Como vou sair dessa? Esse papel dá somente pra duas passadas”. É o barato do cara, gosta de desafios. As pessoas podem ter idéias geniais durante uma cagada, podem começar uma guerra também. As pessoas refletem sobre a vida, pensam nos problemas, nas soluções, tomam decisões importantes. Há cinco minutos atrás, Dona Ruth estava cheia de dengo com seu maridão. Entrou no banheiro, sentou, pensou demais, saiu e pediu o divórcio. Simples assim. O maridão ficou sem entender nada, foi até dar uma cagada para pensar no assunto.

 

Isso só me leva a uma conclusão: cagar é tão importante quanto respirar. A gente banaliza, brinca, faz piada, não fala sobre o assunto em público, mas no fundo no fundo, a gente sabe do poder de uma bela cagada. Salva uma ressaca, salva um casamento, salva uma vida, quem sabe conserta até o mundo.. Portanto, mãos a obra meus amigos. O mundo certamente depende de nossas cagadas.

Treta na padoca

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , , , , on January 9, 2012 by gugagessullo

Quando Seu Manoel fechou as portas da padaria, mal sabia ele que o tempo ia fechar lá dentro. A porta bateu, a chave virou e o silêncio foi abruptamente interrompido por um grito lá do alto da bancada “Aê bando de playboy! Vamos acertar as contas !”. Era ele, o Ovo Colorido, junto de seus fiéis escudeiros Tremoço, Torresmo e Amendoim.

Ali ao lado, na área dos salgados, a coisa andava dividida. Tinha a turminha das antigas que apoiava o Ovo Colorido e a outra, que bradava mudanças. “Nós tâmo juntos, irmão!”- berrou Croquete, o mano dos salgados, sujeito casca grossa. Bolinho de Bacalhau, Enrolado de Salsicha, Kibe Frito, Coxinha, Esfiha de Carne, Coxa Creme, Pão de Queijo, todos eles gritaram juntos.

Era a turminha das antigas, salgados que dominaram por anos a fio o menu de padarias e botecos. Bolinho de Bacalhau era um velho português ranzinza, tinha princípios, lutava para garantir sua qualidade primorosa. Mas quando os preços inflacionavam, ele não vacilava : fazia um bem bolado e coloca batata no recheio para continuar no mercado. Coxinha era quase uma senhora, rodada mas ainda bem apreciada. E nos últimos anos, em busca de rejuvenescimento, injetou catupiry no corpo. Ficou uma delícia. A prima feia dela era a Coxa Creme, chegou até a arrancar algumas mordidas por ai, mas era de fato uma baranga daquelas.  Já o Enrolado de Salsicha era o famoso quitute garanhão, um come quieto: todo mundo diz que não dá muito bola pra ele, mas tá na boca do povo, tem massa, tem carne, tem tudo. Virou até produto congelado, um superstar da criançada, sempre no carrinho de compras das donas de casa.  Está sempre nas festinhas ao lado da Coxinha e do amigão Pão de Queijo. Pão de Queijo, aliás, ainda era o Rei dos salgados. Não era o lider da turma por opção, mineiro tranquilo, mas era um articulador feroz. Liderou o movimento dos congelados na década de 90, mudou o mercado dos salgados. Foi o primeiro a ter uma franquia com o próprio nome. Pão de Queijo era o sujeito sociável, transitava em qualquer classe social. E tinha a turma dos libaneses, Kibe Frito e a família Esfiha, liderada pela autoritária Esfiha de Carne.

          Vai começar a putaria? – respondeu o Folhado de Palmito ao Croquete.

A turma do contra vinha forte : Bolinho de Risoto, Bolinho de Aipim, Folhado de Espinafre, só para citar alguns. Era aquela turminha dos novatos, playboyzada encrenqueira, que crescia sem parar, dominando o balcão de padarias, inflacionando o preço dos salgados.

A família Risole é que parecia meio dividida, mas o patriarca, Risole de Carne, deu logo um esporro geral e chamou todo mundo pra briga “Vamos lembrar que recheio não vale nada, nasceu Risole, é Risole até a morte!”. Os filhos mais novos é que pareciam querer divergir do Pai, principalmente o caçula, o tal do  Risole de Camarão com alho poró. Mas Risole de Carne era um cara duro, severo, quanto mais nervoso, mais frito, mais indigesto. Risole de Carne tinha o controle da sua situação. A família Empada era outra em conflito : a Empada tradicional de Palmito flertava com o Ovo Colorido enquanto a Empada de Camarão, Catupiry, Tomate Seco e Carne Seca se aliciavam cada dia mais com a facção dos playboys.

          Vocês estão querendo gorar a nossa tradição, rapaziada? – bradou o Ovo Colorido. E ainda deu uma chamada na galerinha dos doces – E ai Pé de Moleque, de que lado vocês estão, mano?

Pé de Moleque era um sujeito temido na padaria. Seu insucesso com crianças, após a invasão de chocolates e doces industrializados nas padarias, gelou seu coração. O que era feio, agora era horrível. Um Pé de Moleque seco, esturricado, pronto para uma dor de barriga daquelas. Tinha uma birra forte com o Charge da Nestlé, mas a treta ultrapassava os limites da padaria : Pé de Moleque ainda temia o poder das corporações. Eles sempre se estranhavam ali na região do caixa, mas aquela área era dominada de gente graduada : Choquito, Prestígio, Milkbar, Twix, Kit Kat, Sufflair, gente que vinha embalada, em papel brilhante, mal intencionada, pronta para acabar com as tradições, cópias umas das outras, um exército, vinham em bando para aniquilar com tudo o que era artesanal. Pé de Moleque torcia por uma reformulação de espaço, queria ser transferido da região do caixa para onde estavam seus verdadeiros amigos : Quindim, Queijadinha, Cocada, Maria Mole e Suspiro.

          Aqui é tradição! – Pé de Moleque respondeu certeiro. E junto a ele levantaram todos seus fiéis amigos. E também Paçoca, sua esposa, e Teta de Nega, amante de longa data. Pobre Teta de Nega, nunca a primeira opção de ninguém.

          Tradição é coisa de velho! – respondeu o lider dos Petit Fours, biscoitinhos amanteigados de tradição francesa que adoravam uma discussão, sempre revoltados e prontos para uma briga. Os doces sírios e libaneses, récem chegados nas padarias, foram subitamente convencidos pelos franceses malvados. Nem Kibe Frito e Esfiha de Carne conseguiram convencê-los.

É, a coisa estava feia. A richa entre tradição e modernidade na padaria era historia antiga, rivalidade famosa. A velha guarda da padaria é que tentava apaziguar os ânimos, se reuniam em conselhos secretos durante a noite para um plano de ação.  Queriam a paz, velavam a harmonia. Mas a velha guarda andava sumida das padarias hoje em dia, tinham definitivamente perdido força de opinião, afinal tinham virado sinônimo de boteco : Rabada, Salsicha no Molho, Fígado Acebolado, Língua de Boi, Joelho de Porco, Frango a Passarinho, Bisteca, poucos deles restavam naquele ambiente que se rendia aos enfeites da nova baixa gastronomia. A velha guarda hoje estava sendo substituída pouco a pouco pelos comparsas da playboyzada, coisas mais refinadas : Filé Mignon Aperitivo, Carne na Cerveja Preta, Escondidinho, Picanha de Panela, Ossobuco, Camarão ao Creme,  entre muitos outros. Quando Seu Manoel sacou o Frango a Passarinho e a Bisteca do cardapio, banidos para sempre, Ovo Colorido sabia que seus dias estavam contados. Era o momento de fazer alguma coisa : lutar ou morrer.

Estava tudo embolado : doce e salgado contra salgado e doce. Quem ainda não tinha tomado partido era melhor decidir logo, a pressão aumentava, a tensão ebulia naquela padaria. Era o caso da família Pastel, quitute que veio da classe mais pobre e virou febre entre ricos e famosos também. Melhor era ter ficado na feira, mas o sucesso subiu a cabeça, chamaram novos ingredientes, mistura aqui, mistura ali, uma baita suruba de sabores que resultou em recheios pomposos, refinados.  Pastel de Carne, Pastel de Queijo, Pastel de Pizza era coisa do passado. Agora era Pastel de Angu com Carne cortada na faca, Pastel de Frango com Catupiry, Pastel de Mussarela com Manjericão e tomate cereja. Carne, Queijo e Pizza estam ali, nos bastidores, tirando seus corpos do oléo quente e criando seus pequenos filhotes deliciosos. Eram uma instituição, um corpo fechado. Não tomavam lado nenhum, mas quem ganhasse teria com certeza seu apoio e bajulação. A família Pastel dançava conforme a música. Ludribiavam o povo com o lema “Dinheiro de otário é festa de malandro”.

A história toda ficava ainda mais complicada com as turmas restantes : os Frios e os Lanches. Eram turmas que andavam de mãos dadas, afinal o que era um Misto-Quente sem presunto? Os Frios tinham os Lanches na palma da mão. Na verdade, um dependia do outro. Presunto sozinho hoje não sobreviveria por muito tempo: um dia Rei, hoje sinônimo de coisa gorda. Mas no Misto, ninguém quer Peito de Peru, entende?  Onde uma turma fosse, a outra ia atrás. Mesmo com a chegada de frios mais chiques e caros, como o Prosciutto e o Queijo Gouda, a turma dos Frios era bem unida. Ninguém levava 200g de Prosciutto para casa. Levava 50g no máximo pra tirar gosto, e o resto era Mortadela, Presunto, Lombinho e Peito de Peru.

Diziam as más línguas que quem tivesse o apoio dos Frios e Lanches ganharia a briga. E na turma dos Lanches, inclua os Sandubas de Metro. Tinha muita gente ali dentro. A balança ia pesar mais para um lado do que para o outro, certeza. Quem também poderia fazer a diferença eram as Pizzas. Elas não ligavam muito de estar ali na padaria, afinal existiam as pizzarias, ambiente exclusivo delas. As Pizzas estavam ali para tirar um barato : Pizza de Mussarela, Portuguesa e Calabresa estavam sempre lá, era o descanso da patronagem italiana, aonde os líderes dessa deliciosa máfia se reuniam para elaborar planos de expansão em pizzarias, discutir novos sabores, novos experimentos, de vez em quando matavam umas Empanadas que se metiam a rivalizar com o Calzone.

Ovo Colorido pegou uma baguete na mão e urrou em alto e bom som “Venham companheiros, vamos nos armar!”. E o bando se juntou a eles. Do outro lado, Folhado de Palmito reuniu sua gangue. E no meio da baderna, a família Pastel, Frios, Lanches e Pizzas assistiam aquilo de olhos atentos. Outro que parecia não saber o que acontecia era o Sonho, sujeito com a cabeca sempre nas nuvens. Vacilão, uma hora ia rodar. As putinhas corporativas; chocolates, balas e doces, riam do alto de seus camarotes. Dava pra ver o sorriso do Mentex brilhando de longe, Azedinho e Doce coletava o dinheiro das apostas, até o Guarda-Chuva da Pan estava por ali, contando e rindo de suas velhas histórias com o Cigarrinho de Chocolate, falecido amigo. Os Pães, atrás da bancada, tremiam de medo. E foram usados como armas : Broa virou escudo, Baguete virou espada, Pão Francês virou granada, Pão de Forma virou barricada. Lá no centro da padaria, os Bolos torciam pelo final mais doce possível, eram muito meigos para entrarem em qualquer briga, só as Cerejinhas que saltitavam serelepes no alto das coberturas torcendo para o circo pegar fogo.

O calor da tensão iminente fervia lá dentro. E começaram a voar pães de um lado pro outro, as duas facções ligaram os fornos, pães franceses saiam de baciada, estavam todos armados até os dentes. A guerra se instalou e varou a madrugada, a cada momento uma parte avançava, outra hora recuava. Urros, berros, gritos, guerreiros de caras pintadas. Foi no meio da bagunça toda que alguém assoviou forte e gritou “Seu Manoel!”. As partes recuaram, se reinstalaram em seus devidos lugares, mas a zorra era nítida : migalhas e farelos por todo o chão, em todas as bancadas. Quando Seu Manoel entrou e acendeu a luz, gritou de pavor. E algum desavisado que ainda lutava em vão arremessou uma baguete na cabeça do patrão. Seu Manoel caiu duro no chão. Acordou acorrentado com a parede pichada de geléia de morango, cor de sangue “É treta na padoca!”.

Choco-rei

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , on November 10, 2011 by gugagessullo

Mulheres e chocolate é amor eterno. Na alegria e na tristeza, na saúde e na doença, na riqueza e na pobreza, até que a morte os separe. Uma relação especial, complexa, embutida, emocional, sensorial, sexual. Chocolate transforma água em vinho. Quando a mulher está alegre, o chocolate celebra, recompensa. Quando entediada ou raivosa, consola. Quando triste, só ou mal acompanhada, dá carinho.  Quando apreensiva, relaxa e acalma. Quando angustiada, acalenta a alma. Pode ver, é só mostrar uma barra que dá comichão na mulherada: como um animal que vê sua presa, o nariz abre, os olhos arregalam, a boca saliva, o coração vai a mil. Nem mesmo o orgão genital masculino tem esse poder inebriante. Não importa qual homem seja, o pênis vem com duas bolas e nada mais, só muda de tamanho. Chocolate pode vir ao leite, amargo, com amêndoas, nozes, macadamias, amendoim, frutas secas, com recheio de coco, caramelo ou marshmallow. Perdeu, playboy.

 

Homem não assume, mas também ama um chocolatinho. Homens desse Brasil: quem não gosta de detonar um barrão de chocolate ao leite sentado no sofá? Você mesmo, amigão, que no meio do expediente saca daquele compartimento secreto da mochila uma barra de Kit Kat, Sufflair ou Twix e manda para dentro em segundos. Ou no meio da madrugada entra sorrateiro na cozinha e vai direto para a dispensa a procura de uma barra qualquer. E fica puto se só encontra uma barra velha de cereal. Chocolate é uma alegria, pequeno prazer mundano que nos faz esquecer da amargura cotidiana. O homem  apenas não admite loucamente, já as mulheres gritam e esperneiam. O que afinal esta por trás dessa pequena e poderosa iguaria, que seduz, corrompe e ludibria nossas mulheres?

 

Bom, tem a minha teoria, a da repressão feminina. Você, homem adulto, esta acostumado a ver bunda e peito em revista desde moleque, passando de mão em mão num almoço de familia, do avô ao seu tio, do seu tio ao seu Pai, do seu Pai a você. “Da uma olhadinha aqui, filhão!”. Você olha aquele mulherão, alguns saltam pra trás, outros pedem mais. Aliás, pequeno hiato, tem que tomar cuidado – imagina a situação: a única mulher pelada que o garoto viu até então foi sua mãe. Ai o Pai chega em casa com a Playboy do mês com a Claudia Ohana e seu gato siamês na capa. De duas uma: ou você o traumatiza de vez ou o moleque cresce um depravado adorador de xanas cabeludas – Enfim, para o homem começa assim, como molhar o dedinho na espuma do chopp. Quando a adolescência começa e os hormônios bombam, espinha é sinal de punheta. Na mulher, é sinal de muito chocolate. Porque a mulher, claro que com exceçoes, sempre foi punida no quesito sexual. Ai o chocolate virou a Playboy feminina, uma obsessão mascarada de tensão sexual..

 

Mas ai existe a definição acadêmica, que prevalece sobre meu devaneio teórico: o chocolate melhora o humor e alívia o estresse – ele contém substâncias que estimulam a produção de serotonina, um neurotransmissor que ajuda a combater a depressão e a ansiedade, além de estimular os centros de prazer e de bem-estar. Tudo isso pra explicar que chcolocate é bom e da tesão. Dizem até que dá o mesmo prazer que uma corridinha proporciona. Ai já é comparar alhos e bugalhos, pois correr nunca chegou perto do prazer de devorar um chocolate, me desculpem os adeptos de plantão. Minha mulher já tentou correr kilometros e nunca sentiu nada. Eu também já tentei e nada. “Tem que correr mais, depois de uns 5km você começa a sentir e não quer mais parar” ou ainda, “Uma hora o cansaço e a dor muscular são substituídos por um gostoso bem-estar, uma mistura de euforia e prazer”. Para com isso, para mim cansaço e dor muscular são sinônimos de desespero. O chocolate é de fato muito mais prazeroso. Divide a tela em duas e coloca em uma alguém correndo e na outra, alguém devorando uma barra de Toblerone. Quem parece mais feliz? Quase todo mundo que me veio com essa teoria da corridinha parou com a graça meses depois. Voltaram para a barra negra açucarada. Se o negócio fosse bom mesmo, estariam correndo até hoje. Agora, pergunta se eles pararam de comer chocolate. Não, nunca, jamais. O chocolate ainda reina absoluto.

1,2, 3 carneirinhos…

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , on September 30, 2011 by gugagessullo

Os 30 chegaram, acho que a idade bateu. Deve ter alguma chavezinha que se vira dentro de nós. Não é possível de que de uma hora pra outra a gente comece a gostar de uva passa no arroz, frutas cristalizadas, fruta de sobremesa, escarola refogada, pizza de aliche. Coisa de velho. O gosto muda com a idade. E o sono também. Eu me lembro de escutar meus pais rodopiando pela casa no meio da madrugada quando era criança. Meu pai acendia um, dois cigarros, minha mãe lia um livro, lia o jornal.  Eu colocava minha cabeça de volta no travesseiro e voltava a contar carneirinhos. No terceiro, já estava no fantástico mundo dos meus sonhos.

 

Agora com mais de 30 a história é outra e bem parecida com a dos meus pais. Pra dormir no terceiro carneirinho, pelo menos duas taças de vinho. E olha lá. Há um bom tempo, os pop-ups noturnos começaram a aumentar. E eu que achava que isso era coisa de workaholic, que acorda no meio da noite pensando em trabalho, dorme com um bloco de notas do lado da cama pra não deixar nenhuma grande ideia vazar. Já acordei as duas da matina pensando no almoço do Domingo: lasanha ou frango de padaria? Já me peguei planejando férias as três da manhã ou lembrando das férias passadas e amaldiçoando o dia de amanhã. Aquela fatura que deixei de pagar. Aquele amigo que faz tempo que não falo. As finanças…vai dar pra comprar aquilo? Vai dar pra fazer isso? Ou ainda, remoendo uma rusga familiar, pensando se vale a pena ter filho, no futuro do meu filho. Se está na hora de uma mudança radical, se vale enviar uns currículos por aí afora. Ou aquelas coisas nada a ver com nada, do tipo “E se eu pintasse a parede da sala de vermelho, ia ficar legal?”. Já trombei minha mulher na cama algumas vezes, se remexendo como eu. Outro dia lá pelas tantas da manhã dei um cutuco nela, ela respondeu de bate pronto, juro que se nós decidíssemos ir pra cozinha daquele jeito a gente fazia um bolo, com cobertura e tudo, assava uma carne na panela de pressão, fazia biscoitos caseiros, participava de uma gincana, planejava uma festa surpresa pra alguém, jogava uma partida de buraco, sei lá. E na boa, empolgados, como se tivéssemos três expressos na cabeça, com os olhos arregalados e a cabeça a mil. Mas amanhã é dia de branco, aí a gente se abraça, se acalma e tudo volta ao normal. E não é que é sempre assim, mas acontece. O ser adulto moderno é um ser um estado de vigília constante. A gente cresce e vai aumentando a cerca com o tempo. Lá pelos 50, vai ter carneirinho batendo cabeça.

Vice-versa

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , , , , , on September 27, 2011 by gugagessullo

Vice-versa

Algumas pessoas estão definitivamente mais preparadas para esse mundo. Outras não, pelo menos não do jeito que o mundo é. Enfim, isso separa a turma toda em dois times, os que sofrem mais e os que sofrem menos. E é claro que nada é assim tão simples: cada time tem também suas subcategorias, tem os que sofrem menos dentro do time dos que sofrem mais, tem os que sofrem mais dentro do time dos que sofrem menos. Tem gente que vira a casaca no meio da vida, tanto de um lado quanto do outro. E assim vai, complicando, gente chutando de direita e de esquerda, com os dois pés, de bico e colocado, embolando o meio-campo.

Você sabe de qual time faz parte? Provavelmente sim, é só buscar na memoria. Se você é daqueles que não sofre, que leva a vida na boa mesmo à frente das incoerências e abusos desse mundo, provavelmente você era aquela criança que arrepiava todo mundo no War, Banco Imobiliário e Detetive. Já os sofredores, do outro lado, piravam no Jogo da Vida, Cara a Cara e Imagem e Ação.

No Pega-Varetas, o não-sofredor era obsessivo pelas varetas pretas, aquelas que valiam mais pontos, enquanto o amiguinho sofredor morria de medo de fazer o amontoado mexer a cada jogada. Ele mais sofria do que curtia a brincadeira. No baralho, arregalava os olhos quando jogava Burro num nervosismo constante para baixar de vez as cartas, não importa quem ganhasse. Já o não-sofredor ficava puto se não baixasse primeiro. E quando baixava, fazia aquela arruaça. É o mesmo sujeito que hoje adora gritar “marreco” na orelha dos outros numa mesa de truco.

No Atari, enquanto o sofredor se divertia com o Keystone Kapers, aquele jogo bobinho e divertido do bonequinho que pulava carrinhos de supermercado, o amiguinho não sofredor só queria saber de atirar em tudo que via pela frente no River Raid. O sofredor se divertia jogando bolinha pra lá e pra cá no Pitfall, o não-sofredor acelerava fundo e ultrapassava tudo no Enduro. Esse ai, alias, é aquele que comia tudo no Pac-Man e ainda dava um baile nos fantasminhas. O sofredor saia correndo, comia o que podia e sempre era pego no final.

Lembra da Caverna do Dragão? Então, o sofredor concordava com o Bobby de nunca deixar a Uni, já o não-sofredor ficava puto da vida com o baixinho marrento que fodia com o resto da turma e não deixava ninguém ir pra casa. O sofredor desconfiava até do Mestre dos Magos, o não-sofredor se perguntava porque eles nunca aceitavam as propostas tentadores do Vingador. E também ficava nervoso com o porra do Geléia, sempre fazendo bobeira, sempre atrapalhando a missão dos Caça Fantasmas. O sofredor era do time do Scooby e do Salsicha, o não-sofredor também gostava mas confiava nos palpites do Fred e da Wilma. Alguns sofredores acabavam se identificando demais com o Príncipe Adams, coisa de bater na alma mesmo. E na contrapartida, alguns dos que não sofrem nada só queriam ver o He-Man sentado no gato guerreiro dando bofete por ai afora. Coisa engraçada, sofredores ou não, hoje fazem parte de um mesmo time…

Não me entendam mal, afinal tanto o sofredor quanto o não-sofredor podem ser excelentes pessoas, a questão é mais de perspectiva do que outra coisa. Por exemplo, quem hoje sofre demais, torcia para o Papa-Léguas nunca ser pego. Quem hoje sofre de menos, torcia para Coiote se dar bem. E no mundo de hoje quem se deu bem foi mesmo o Coiote, não foi? Os dois, aliás, torciam pelos planos do Cebolinha dar certo, mas o sofredor logo se enjoou das historias quando se tocou que eles nunca iam dar certo. Passou logo pro Tio Patinhas.

Razão x coração? Dureza x sensibilidade? Nada disso, todo mundo tem os dois. A balança é o indivíduo.  Alguns vão estar sempre na festa desse mundo, felicidade rodando, sangue nos olhos, reb bull na mão, quando a peteca dá sinais que vai cair, toma um tapa de pelica e volta pro ar. Depressão, tristeza? O caralho! Joga uma água na cara e continua. Outros vão se deixar levar pela melancolia, pela solidão, pelo grito íntimo que bate em todos os peitos desse mundo. Alguns nunca entenderão os outros, os outros nunca entenderão alguns. E vice-versa.

Tindolêlê

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , , on September 27, 2011 by gugagessullo

 

Tindolêlê

 

Ah vida moderna, você  que nos deixa loucos. Acordamos com o som frenético das buzinas e ruídos, olhos arregalados, passamos o café daquele jeito, ducha, mal limpamos a bunda e lá vamos nós ao trabalho. Hoje são tantas coisas para se pensar e fazer, conciliar vida pessoal e vida profissional, não? Hoje são tantos sites e blogs para ler, uma hora tá tudo bem com a economia, outra hora é recessão, uma hora o Brasil é o país do futuro, outra hora é o país da vergonha. Uma hora teu time tá na ponta da tabela, na outra lutando pra não cair. Hoje são tantos livros para ler, fora os que ficaram pra trás, nas listas, tantas bandas para se ouvir, tantos filmes para ver. Tanto tudo que tudo é nada, o tempo que consome tudo o que está em volta. Passa um ano, entra outro e aquela sensação de que as promessas e as resoluções são quase sempre as mesmas, a gente estoura o champanhe e se engana que tudo vai ser diferente, que dessa vez aquele sonho, aquele projeto vai andar, que a vida finalmente vai mudar, que vamos emagrecer e ficar com aquele corpão global. Parece que não muda nunca, só acelera ainda mais. Redes sociais, telefones inteligentes, pequenos diabos intrometidos, estupradores da tranquilidade, arregaçam a castidade da nossa privacidade. Sabe o que é o Facebook? Depois do login e senha começa a sair da tela aquela música da Xuxa:

 

Todo mundo tá feliz?
Tá feliz!
Todo mundo quer dançar?
Quer dançar!
Todo mundo pede bis
Todo mundo pede bis
Quando para de cantar

 

Batendo palma
E dando um grito
Hei!
Levanta a mão passando energia
Batendo palma
E dando um grito
Hei!
Levanta a mão passando energia

 

Eu quero ver
Levanta a mão
Vem balançando, balançando a multidão
Eu quero ver
Tindolelê
Nheco Nheco
Xique Xique
Balancê

 

Sim, é isso. Pessoas felizes, fotos de um mundo utópico, todo mundo é engraçado, todo mundo faz piada, todo mundo comenta, todo mundo cutuca.  Enfim, todo mundo quer dançar. E um brinde a vida moderna: copos cheios e pessoas vazias!

Bexiga vazia

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , on August 23, 2011 by gugagessullo

Desde sempre tinha algo errado com o Manuel, um desbalanceio precoce com esse mundo. Nasceu pré-maturo, berrando, injuriado. Logo cedo, sarampo e catapora. Com 5 anos já tinha os dedos comidos por frieiras. Com oito, micose na unha. Com dez, gastritre. Com doze, já fazia parte da turma do refluxo e com quinze, teve a primeira úlcera. Com dezoito, já tinha o corpo inteiro baleado. Manuel nunca procurou ajuda nem ninguém quis ajudar, sua mãe morreu no parto e seu pai era um vadio itinerante. Foi criado pela dor de ser só. Ele sabia que seu problema era mais sério, algumas pessoas ficam deprimidas, outras o corpo responde fisicamente. Nunca foi um cara triste, nunca foi um cara reclamão, levantava cedo, dava um sorriso cheio de cáries no espelho e ia para a labuta cheio de dores. Cheio de gases. O problema começou a piorar na adolescência e se tornou quase que insuportável na vida adulta. Aos treze se assustou com uma pontada firme no coração, achou que ia morrer. Foi no médico pela primeira vez, fez exames, ouviu o doutor dizer barbaridades, mas não tinha nada de errado com o coração. Era apenas um cardume de gases que nadava sem rumo dentro dele, batendo aqui e ali, dando trombada em tudo quanto é lugar. Aprendeu a conviver com a dor no coração e com a triste idéia de que não ia morrer tão cedo. Os amigos diziam que ele tinha algum tipo de alergia a alimentos, que deveria parar de comer gordura. Se parasse de comer carne, fumar e beber, ai é que não aguentaria o tranco. A ressaca era necessária, o fazia lembrar que ontem foi um dia melhor.  Com o tempo, Manuel passou a gostar dos seus gases, se achava um ser abençoado. Quando a coisa estava preta, um peidinho sempre deixava tudo melhor. Era sua válvula de escape para tanto sofrimento. E sofria mesmo. Para aliviar, cagava três vezes ao dia e peidava pelo menos cem. Assim ia levando, atenuando a dor de nascer esse ser errante. Ja não escondia mais de ninguém, Manuel « o peidoqueiro » ganhou fama. Por onde andava ouvia piadas  e por isso então, por onde passava fazia questão de deixar um rastro de cheiro de merda. Não teve mulher, só se engraçava com putas. Não queria filho, não queria perpetuar sua espécie, não queria um outro merda por ai. Levou a vida aos trancos e barrancos e aos solavancos, o corpo cada vez mais dolorido, a dor cada vez mais embutida. Em uma segunda-feira qualquer, porque não poderia ser outro dia, dia de merda, um velho e combalido Manuel acordou, preparou o café e fumou um cigarro. Sentiu uma pontada no coração e se praparou para soltar um peidinho, o primeiro do dia. Mas o pedinho não veio, foi o coração quem parou. E assim Manuel subiu aos céus em velocidade máxima como uma bexiga que esvazia no ar.

A revolta dos queijos

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , , , , , , , , , on June 29, 2011 by gugagessullo

Foi Mr. Roquefort quem começou a polêmica. Ele estava possesso com esta rotulação exagerada em cima do Catupiry. Decidiu então convocar uma reunião de urgência em sua casa. E vieram todos: o popular Mussarela, o forte Parmesão, o esquisito Gorgonzola e seus pequenos fungos, o prepotente Grana Padano, toda a familia Pecorino, o cascudo do Provolone, o maturado Asiago, a natureba da Ricota, o cremoso Mascarpone, o fresco do Gouda, o esférico Edam, o entojado Gruyere, a elitista Camembert, o difícil Blue Cheese, o redneck do Cheddar, o bondoso Queijo Prato e até eles, os brasileiros Coalho, Minas e Meia-Cura.

Questionado pela ausência de queijos como Requeijão e Cream Cheese, Roquefort foi explícito na sua teoria da segregação:

“Olhem bem meus caros, somos queijos, eles não. É questionável até a autenticidade do Catupiry então para este dois aí nem sequer abro discussão. São misturas!” – e fez uma cara de desgosto.

Todos aplaudiram fervorosamente.  Após os aplausos cessarem, Camembert, sempre ele, deu seu pitaco final:

“Mas olhem bem meus amigos, há tempos que o Requeijão compete com o Catupiry, quem nunca viu em cardápios de segunda por aí o tal do Requeijão Cremoso? Me pergunto novamente se não devemos o incluir numa próxima reunião. “

Quem estava mudo e calado desde o começo era o Cheddar, pois todos ali sabiam do seu flerte descarado com os cardápios populares apesar do status de queijo gringo quando chegou aqui. E ele gostava disso na verdade, Cheddar tinha um pouco da síndrome norte-americana, queria dominar o mundo. Via sua popularização com bons olhos e trabalhava arduamente para não sair de cardápios de lanchonetes requintadas que garantiam sua fatia no mercado entre os mais afortunados, pensava nos dois lados da mesa. Cheddar sustentava uma verdadeira tática secreta de guerrilha contra o Catupiry. E é claro, ser visto como alguém que quer o lugar de Catupiry sem dividir o espaço, não seria bem-vindo ali. “São tempos de guerra” – pensava sempre ele.

Quem não estava contente era Brie. Rolavam boatos de que ela havia se rendido aos encantos do Catupiry e até de que o Polenghi era fruto de uma relação proibida entre os dois. Pois bem, a verdade é que Brie sempre flertou com geléias e afins e quando veio ao Brasil se deparou com a deliciosa Goiabada. E todo mundo sabe que somente deliciosa a Goiabada não é, mas também bem safadinha: vai sempre com o Minas, já foi com Queijo Prato, tem momentos com o Coalho e acabou enlouquecidamente apaixonada nos braços do Catupiry.

“Vamos começar nossa reunião” – começou Roquefort – “Porque ele, bem ele, conseguiu o mais belo dos triunfos: um produto, um queijo como todos nós, ter seu nome estampado como marca. É no mínimo injusto, não conheço por aí uma marca Roquefort, Camembert, conhecem? Que tipo de favorecimento a sociedade e os investidores vêm dando a este tipo de queijo?”

Mussarela aproveitou o discurso e soltou o verbo:

“Nem mesmo eu, o mais popular dos queijos! Estou nas massas, nas pizzas, nos risotos, nos omeletes, nos salgados diversos. Venho assim de geração em geração sem perder a pose, sempre no topo, mas aí chega um moleque metido a queijo, este tal de Catupiry, e quer posar de bonitão? ”

“Tem razão” – pontuou Camembert, invejoso no fundo. “Se existe alguém aqui que merece ser uma marca é você caro Mussarela. Chegou com os imigrantes italianos e ajudou a construir a gastronomia desse país. Do Brás, do Bom Retiro e do Bexiga para todos os bairros em tão pouco tempo, nunca preconceituoso, sempre em qualquer prato, em qualquer classe social. É chique e popular ao mesmo tempo, um ícone, um mito!”

Enquanto Roquefort, Camembert e Mussarela participavam ativamente, Parmesão estava calado como nunca. E aquilo chamou a atenção dos líderes daquela reunião, porque aquele queijo tão nobre e de presença marcante que sempre teve o merecido respeito e voz ativa estava assim tão calado?

“Parmesão? Parmesão, querido?” – Camembert pediu que Gruyère o cutucasse.

“Oi, estou aqui” – Parmesão levantou-se de sopetão, soltando lascas pelo chão. “Eu queria explanar aqui minha revolta em relação a minha versão ralada.” – fez-se um silêncio monumental, pois a versão ralada sempre foi um assunto tabu para o Parmesão, como um filho bastardo. “Nunca fui contra a esta minha singular versão, tão sempre bem apreciada principalmente em massas e risotos e que fez crescer o apreço do povo por este queijo que vos fala. Mas aí veio algum idiota e me joga numa porção barata de polenta frita, vocês se sentiriam como? E de risoto, pulo pra um arroz de forno caseiro, isso engrandece um queijo? E viro ingrediente de tortas, jogam-me em batatas fritas oleosas e pegajosas, estou até em versões congeladas de lasanha! E como vocês acham que anda minha auto-estima, hein? Sou um queijo sem pátria hoje, ou melhor, sem prato. Vou em tudo, e só minha versão ralada. Para mim, só sobram apreciadores de lascas de parmesão que me lapidam vorazmente. Eu vejo meu nome sendo comercializado como Teixeira, Faixa Azul, quem são eles para me popularizarem assim? Produção em massa de um queijo italiano, ma che?!”

 “Parmesão” – interrompeu Gorgonzola. “Com sincero respeito à sua dor, podemos discutir isso mais tarde? A pauta é o Catupiry.”

“Fala isso só porque não podem te ralar e te vender em sacos plásticos, seu miserável!” – Parmesão caiu aos prantos.  Gorgonzola, arrependido, foi consolá-lo e achou melhor o levar para dar uma volta lá fora. Parmesão estava descontrolado e aquilo poderia gerar uma revolta individual coletiva, que queijo ali não se sentia hoje menosprezado pela sociedade também? Dali para o Gruyère reclamar que andava sendo usado para gratinar batatas seria um pulo. Roquefort tomou a frente e pediu silêncio.

“Queridos, voltemos ao Catupiry.”

“Sim, voltemos a ele” veio o coro geral.

“Outro dia fiquei sabendo de uma coisa que levou a este estopim. E qual foi minha surpresa quando em uma pizzaria refinada dos Jardins vi estampado no cardápio a logomarca do Catupiry”

“Ohhhhhhhhhhh” – todos estavam espantados.

“Agora é lei amigos! Além de intromissivo, é mesquinho! Para um estabelecimento dizer que tem Catupiry no seu cardápio, deve ter o seu logo impresso no cardápio!”

“É por isso que acho importante a presença do Requeijão, caro amigo Roquefort. É ele o queijo mais prejudicado diretamente, Catupiry fez isso para barrar sua expansão. Todos nós sabemos que o Requeijão Cremoso é uma pobre mistura entre queijo e leite, gordurosa e opaca, sem a densidade que um queijo cremoso merece, não é Mascarpone? Mas tachá-lo de imitação barata é outra coisa, afinal ele tem vida própria. Ele seria um excelente aliado e dos mais fervorosos!”

“Pouco me lixo com o Requeijão” – Gruyère tomou partido pela primeira vez. “Vocês não enxergam o que está por trás disso? Em menos de cinco anos eu garanto que o Catupiry será um queijo de ordem nobre! A sua esperta tática de imprimir-se em cardápios, banaliza a trajetória ascendente do Requeijão Cremoso, colocando-o de fato num patamar de queijo imprestável, de imitação barata, O Catupiry é o 1º queijo marqueteiro da história!”

“E o que fazer para impedi-lo?” – berrou Cheddar, devidamente preocupado com o que ouviu.

“Sinceramente não sei” – Gruyère baixou a cabeça.

“É de fato uma atitude previsível” – gritou a Ricota lá do fundo. “Um queijo como você, Gruyère, que não é usado para o paladar popular, que só é usado em cardápios caros e em fondues. Você não vive o que vivemos: a banalização de nosso uso fruto. Aliás, eu aponto o dedo para o Roquefort, Camembert e outros aqui nunca foram usados com banana, tapiocas, fritos em pastéis e omeletes, com catchup nas pizzas e em sujas chapas de lanchonetes!”

Ricota sempre dava uma dessas nas reuniões, era revoltada e extremista como toda natureba. Não percebia que ela mesma nunca tinha entrado numa chapa suja e não aceitava o fato de ter virado ingrediente de sobremesa.

“Cale a boca Ricota! Você é hoje mais popular no cheesecake do que sozinha!” – Brie tinha uma rusga com ela.

Ricota era realmente um caso a parte. Nascida para ser apreciada sozinha, no máximo com temperos e em pães e massas, acabou sendo associada a doces italianos como a cassarola, sfogliatella ou a doces americanos como o cheesecake. De musa do salgado para musa do doce, perdeu sua identidade. Relutando para estar somente aos cardápios de docerias, acabou se rendendo a buffets vegetarianos, sanduíches naturais, pizzas e comidas sem gosto algum. Pobre Ricota, comparada hoje ao intragável Cottage, que, aliás, não estava ali por falta de respeito, pois foi chamado mas devia estar exercitando seu domínio nos cardápios de academia.

Mais uma vez ele, Gorgonzola, e seus pequenos fungos fizeram à boa ação de retirar a enlouquecida Ricota do recinto, Parmesão reabilitado voltava ao seu lugar. Gorgonzola fazia de tudo par manter esta fama de “sou feinho, mas sou bom”

“Pessoal, retomando” – Roquefort apropriou-se da palavra “Vamos tentar nos focar no Catupiry, por favor” – todos concordaram. “Gruyère tocou num ponto importante aqui, Catupiry objetiva a dominação. Há dez anos atrás, lembro de um papo que tive com o Camembert onde ironizamos um novo recheio que havia sido incorporado nas pizzarias: frango com catupiry. Pensamos isso é besteira, quando um adulto vai querer comer um recheio tão sonso como esse. Mas de fato, as crianças adoraram.

“E adoram!” – berrou o Cheddar meio que desesperado.

“Ele está buscando as novas gerações meus caros. Quem pede hoje recheio de Aliche? E Atum? E Escarola? Só a velha-guarda. As crianças de dez anos atrás hoje são jovens com o Catupiry incorporado em seu paladar, claro que percebem com o tempo que o lugar de frango é na churrascaria, mas o Catupiry os acompanha e eles vão criando novos recheios: calabresa com catupiry é hoje um recheio popstar!

“O sabor Toscana é meu! – gritou Mussarela.

“Era Mussarela. Calabresa moída hoje vai mais com Catupiry, desculpe a verdade.” – Mussa abaixou a cabeça e assentiu com a afirmação. Não queria escutar aquilo, há tempos percebia que estava sendo trocado. “O frango é uma isca poderosa para as crianças, é genial, é brilhante! Criança gosta de coisa insossa! É preciso admirar seu adversário acima de tudo!”

“E tem outra” – Gruyère tomou a frente “Quem foi o pioneiro em ir do recheio para a borda?” – todos se entreolharam embasbacados. “Outra tática fantástica! Catupiry invadiu as bordas e virou sinônimo de borda recheada.”

Queijo Prato, tímido como ele só, levantou a mão. “Eu gosto do Catupiry”.

“Seu idiota!” – berrou o insolente Camembert. “Depois reclama que você só entra em tábua de frios! Nem como queijo aperitivo você é visto mais, isso que dá ser um sujeito tão bom assim, tão bom coração”.

E era a mais pura verdade, como era dócil e bom aquele Queijo Prato! Tinha potencial para concorrer com a Mussarela, mas ele era amigo de todo mundo, ingênuo, sem inimigos, quando alguém ficava em dúvida entre ele e a Mussarela, ele meio que se omitia porque achava que não era bom o bastante. Queijo Prato subestimava si mesmo. A bondade lhe foi um golpe poderoso, virou sinônimo de frios. No começo ainda flertava só com o Peito de Peru, o Lombinho, mas quando se envolveu com a Mortadela, foi o estopim para ser considerado um queijo do povo e nada mais. Queijo Prato só queria amar e ser amado.

Em meio à discussão, as portas da sala de abriram. Mediram os presentes do pé a cabeça, até queijos como Camembert, Roquefort e Gruyère. Eram eles: Emmenthal, Tofu, Morbier, Blue Stilton e Manchego.

“A turminha dos descolados.” – sussurou Brie para sua amiga Ricota, que já estava de volta.

“Ficamos sabendo desta reuniãozinha” – disse o folgado Morbier

“Não receberam meu comunicado?” – Roquefort era patético, odiava esta turma do fundo de seu coração e era covarde na frente deles. Mas tinha uma explicação: seu relacionamento com a deliciosa Emmenthal, que hoje andava nos braços do forte Blue Stilton.

“Este tal de Catupiry nos interessa também” – argumentou Tofu, um queijo que irritava a todos. A começar pelo fato que era feito de leite de soja, patético. E por causa disso, se achava versátil e saudável. Mas o fato era que tinha história, foi inventado pelos chineses há mais de dois milênios e nos últimos anos com a onda natureba cresceu e ganhou definitivamente seu espaço no mundo ocidental.

“Volta pro Misoshiro!” – Parmesão exaltou-se. “Você não tá em pizza, não tá em massa, não tá em salgados, muito menos em doces, só te vejo cru, no máximo defumado, e em cardápios orientais. E que gostinho vagabundo é este seu hein! Dá a mão pro Cottage e sai andando!”

O clima esquentou, a Mussarela começou a derreter de raiva também, tinha um ódio mortal do Tofu, que dizia que era a Mussarela do Oriente.

“Parem!” – Emmenthal pediu a palavra, antes bisolhou a embalagem da Brie e da Ricota e, sabendo que estava muito mais encorpada, apesar de um pouco furada, sorriu com desleixo para as duas. “Quem ficou sabendo desta reunião fui eu, nada como embebedar um queijo xucro, não é Coalho? Pois bem, viemos aqui, pois temos uma sugestão interessante contra esta dominação do Catupiry. Afinal, somos quase todos aqui queijos mundiais e quem é Catupiry no mundo?”

“Tem muito país por aí que anda usando Catupiry” – alfinetou Gruyère. A birra de Gruyère com Emmenthal era tanta que queria fatiá-la ao meio! Tudo por causa de um pé na bunda que a saborosa Emmenthal lhe deu. Bem nele, considerado pelos suíços “o rei de todos os queijos”.

“Mas ele ainda não é nada, querido. Nossa proposta é um jeito de barrar isso de vez: nos unirmos para criar um superqueijo poderoso.”

“Como assim?!” – Cheddar babava de prazer súbito.

“Imaginem um queijo com todas nossas propriedades? Um paladar como nenhum outro, numa mesma mordida você tem a leveza da Brie, a cremosidade do Mascarpone, o refinamento do Camembert, a presença marcante do Parmesão e do Provolone, a brasilidade latente do Coalho, Meia-Cura e Minas, a pureza do Queijo Prato, a familiaridade da Mussarela, a boa estranheza do Gorgonzola, o imperialismo do Cheddar, a bruteza do Blue Cheese…” – e assim foi Emmenthal conquistando todos seus ouvintes, um a um, adjetivando-os de forma sublime e irresistível. Quando terminou, estavam todos prontos para qualquer coisa pelo tal do superqueijo.

“Esta nossa superunião, este superqueijo vai ser único e onipresente. Como um queijo insosso e brega como o Catupiry pode competir com algo destes? Vamos acabar com ele!” – se excitou Cheddar.

E então convocaram todos os tipos de queijos deste mundo: Tilsit veio especialmente da Rússia, Saint-Paulin pegou o primeiro vôo da França até aqui, o argentino Montanhês também apareceu, até o petulante Maasdammer veio da Holanda. Todos contagiados pela idéia de deter Catupiry, de suprimir suas forças cremosas. Ascenderam finalmente a fornalha e entre urros de alegria e esperança, pouco a pouco se derreteram todos formando uma massa uniforme e poderosa. Foi ai que apos alguns minutos de silêncio absoluto, a massa amarelada e cremosa rugiu.

E lá do alto de seu palácio, Catupiry ouviu o som amedrontador que vinha lá de baixo. Virou para Polengui, seu fiel escudeiro, e ordenou “convoque nosso exercito, a hora chegou!”.

“Philadelphia, Requeijao, Queijo Cremili, Babybel, La Vache Qui Rit e tudo de mais cremoso nesse mundo?” – questionou Polengui.

“Todo mundo, convoca até aquela novata delicia, a Burrata.”

O que o mundo estava prestes a ver seria então a maior e mais devastadora guerra de todos os tempos. Preparem seus coraçoes porque a batalha vai começar. E você, de que lado está?