Archive for churrasco

Late, mas não morde

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , , on July 29, 2014 by gugagessullo

Mulheres, quem nunca de vocês chegou em casa e se deparou com uma cueca suja largada em um canto da casa? Uma calça usada, uma camisa, uma camiseta, uma meia, um sapato? Quem aí nunca chegou no quarto e encontrou uma toalha molhada em cima da cama? Quem nunca de vocês chegou em casa louca para ir ao banheiro e encontrou o assento com respingos de urina? Respingos e perdigotos até no chão? Antes de ficarem histéricas e se aglomerarem em um motim contra a nossa raça, vamos olhar para a natureza, vamos olhar para os cães.

Antes de tudo, é importante saber que existe uma diferença entre o ato de urinar por uma necessidade fisiológica e o ato de urinar com o fim de marcação territorial. A marcação de território é um comportamento instintivo dos cachorros. Ao marcar território sua intenção é enviar uma mensagem subliminar para os outros seres que habitam a região. Essa mensagem pode ter múltiplos significados, podendo ter o objetivo de deixar claro sua dominância na região, de indicar disponibilidade sexual (sério!), de mostrar frustação ou indignação.  A marcação de território também cumpre papel na construção da autoconfiança canina. Se o seu cachorro está inseguro, por exemplo, é possível que ele venha a urinar pela casa.

E agora aos fatos: homens tem personalidade canina. Nós gostamos de marcar território. A simples compreensão desse fato pode salvar um relacionamento. Não é que queremos provocar, irritar ou fazer birra. Não é displicência ou rebeldia. O engano está aí. É uma forma de expressão instintiva inconsciente. Você chega ao banheiro e vê tudo rosa e perfumado, toalhas limpas e cheirosas, um ambiente predominado pela influência feminina. Mijar para fora da privada é como um grito interno não intencional de dizer “Chega de rosa!” ou “Vamos colocar um pouco de sujeira aqui!” ou “A vida não é toda perfumada assim, porra!”. É uma maneira de demonstrar que o ambiente também é seu e de expressar seus verdadeiros sentimentos masculinos reprimidos pela moral social dos dias de hoje. A urina canina se replica ao homem, que também estende o conceito para objetos largados pela casa. Fácil assim. Afinal, somos seres animalescos dotados de muito mais testosterona e ensinados erroneamente desde crianças a sermos fortes, provedores, predadores e dominantes. Por mais que não queiramos isso. Somos obrigados socialmente e pressionados psicologicamente desde filhotes, seja na escola, na família, na religião, nas novelas, nas séries e nos filmes. O residual que ficava em nossas mentes quando o Van Damme chutava todo mundo e saia furioso e realizado com uma linda garota na garupa de sua moto era que ele havia finalmente marcado seu território e conquistado sua fêmea. Ou seja, mijou por todas as partes durante o filme inteiro.

As manias do homem que vocês odeiam, é culpa de uma mistura complexa entre instinto e bagagem histórica. É como nossa fixação por churrasco. Olhem os índios. Lá trás, nos tempos mais remotos, saíamos para caçar para prover alimentos a nossa comunidade. Pintávamos os rostos e colocávamos nossas roupas especiais. Quando estávamos lá, na selva, todos juntos enfrentando perigos, doenças e outras adversidades, nossa raça encontrou uma maneira de se auto recompensar. Antes de voltarmos com os javalis para a comunidade, todos arranhados, cansados e abatidos, nada mais justo do que assar um javali inteiro para nós mesmos. Longe dos problemas das esposas e dos filhos, estávamos todos lá curtindo uma carne assada e tomando ayuasca. Felizes, livres, bêbados e com a barriga cheia. Voltávamos serenos, tranquilos e prontos para encarar o dia-a-dia da tribo. O churrasco, portanto, é quase um rito tribal masculino.

De fato, a única maneira de entender o presente e prever o futuro, é olhar para o passado. E tentar enxergar no seu homem, o cãozinho, o indiozinho e outras criaturas que existem dentre dele. Somos um mosaico de seres e comportamentos. E mesmo pulguentos e impossíveis de adestrar, seremos companheiros e dóceis. Porque no final das contas, como cachorros inseguros que somos, sentaremos e daremos a patinha sempre, quando vocês bem entenderem.  Nós só latimos, nada mais.

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Sábado era dia de jogo

Posted in Dirty Sheep Originals with tags , , , , on March 31, 2010 by gugagessullo

Sábado era dia de jogar bola. E logo cedo, 8h da manhã. O pessoal da firma reclamou, mas Cupim, o organizador, disse que era o único horário. Cupim era o cara que recebia a mensalidade, levava a bola, colete, mandava e-mail duas a três vezes por semana sempre num template próprio, lembrando o pessoal que ia ter jogo no final de semana, lembrando que faltava pagar, insistindo para que tivesse quórum, Cupim fazia marketing direto melhor que agência e mal sabia. O pessoal ia mesmo, tinha vezes que eram três ou quatro times de espera. Cupim era atacante, apesar da barriga. E apesar da barriga, Cupim corria mais que muito moleque. Raramente vinha gente com cargo acima de supervisor, no grupo eram no máximo uns três gerentes com presença inscontante, então ali não tinha papas na língua, era palavrão, nego xingando o outro, reclamando, empurrando, todo mundo igual. Era o mundo da pelada. Vinha até amigo de amigo, familiar e essas coisas. Lesma, amigo de Cupim de infância, virou presença marcante. Tinha pinta que não jogava nada: barrigão, perna fina, barbudo. E não jogava nada mesmo, mas não é que o Lesma encaixava umas bolas indefensáveis de vez em quando. Jogava na esquerda, era canhoto, lerdo, na defesa era alvo fácil dos moleques da mensageria e no ataque, Lesma não chegava antes do zagueiro. Mas Lesma era importante, tocava a bola de lado, procurava os parceiros do time. Grande Lesma. E estava sempre à mesa do bar no fim do jogo esperando a gente com uma cerveja, isso que importava pro Lesma e para a maioria de nós. Mesmo que fosse às 10h da manhã. E tinha o Robinho, que de Robinho não tinha nada, sujeito pequeno e gordo, mas que achava que era gênio da bola, chegava de meião novo, chuteira colorida. Robinho era gente boa, corria, se esforçava, dava carrinho, peixinho, mas como errava o gol! E o Robertinho então? Cabeça de bagre, pegava a bola e saia em disparada, chutava grama com bola com canela com o que tivesse na frente. E o Menon? Sujeito tímido e gentil, nasceu com vontade de jogar bola, mas com as pernas erradas pra isso, a gente hesitava em passar a bola porque sabia no que ia dar. Mas aquilo era pra brincar e no final, Menon recebia a bola diversas vezes, a gente reclamava “Porra Menon!” e ele abaixava a cabeça, pedia desculpas e dizia que ia melhorar. Menon, um cara nota 10. Lembro também do Gu, irmão do Miguel, que adorava pegar uma canela de jeito quando jogava na defesa. Às vezes ia pro gol, pegava tudo. Lembro da meia dúzia de fumantes, eu incluso, que antes devia até ter jeito com a bola, mas depois de quinze minutos corria menos que o Lesma no ataque. Dos endiabrados moleques da mensageria que picotavam todo mundo, corriam, atacavam e defendiam, jogavam quase sozinhos. Do Miguel e sua barriga dançante. Do Vidal e seus chutes que estouravam paredes. Do Lobo e suas articulações que ninguém compreendia. Do Zuza, que dizia que jogava em clube e só fazia firula. Do Lessa que partia com a bola igual um louco.

A cantina depois do jogo era um evento todo especial. O telão em frente tava sempre com algum evento esportivo rolando e nós, os “atletas” então nos sentávamos em uma mesa e começávamos a opinar, tirando a chuteira, desgarçando o meião, enquanto bebericávamos uma cerveja. Impressionante como bar de campo de futebol tem sempre a cerveja mais gelada do Brasil. E aí o pessoal começava a se soltar. O Miguel, por exemplo, comia coxinha e espeto de frango a milanesa sempre depois do jogo, o Vidal começou levando banana e barra de cereal, mas depois de uns dois jogos já tava pedindo porção. Sobrava banana em casa. E tinha uns caras que achavam que 10h era cedo pra tomar uma breja e comer fritura e pediam aqueles sucos artificiais que mistura duas frutas, suco doce, grosso, e os caras achando que aquilo era saúde, demais. Aí o Cupim, o organizador, teve a idéia de fazer de vez em quando churrasco. Boa idéia, todo mundo aprovou. E lá no campo tinha um espaço para eventos, churrasqueiras oxidadas num quintal, e lá íamos nós com as carnes já compradas pra sair mais em conta, cerveja vinha do bar mesmo. Churrasco de homem, sem muita higiene, a tábua que servia carne aos atletas era na verdade a tampa do isopor onde ficavam as cervejas. Lembro que um dia veio a namorada ou mulher de um dos caras e ela queria tomar coca com gelo. O Lesma, na ocasião churrasqueiro, me enfia a mão do jeito que tava no isopor das cervejas e tira duas lascas já engorduradas de gelo e enfia no copo. A mulher agradeceu e nunca mais voltou em outro churrasco, ali era ambiente de macho. E ríamos, cada um contava seus causos, suas histórias, e aí vinha piada, depois lingüiça e mais picanha. E então lá pelo meio-dia todo mundo pegava o caminho de volta, os caras chegavam em casa, mordiam um doce e apagavam na cama todo mamado até as cinco da tarde. Imagino a cara da mulherada, que esperava os marmanjos para dar uma volta, fazer umas comprinhas, sábado. E os caras cheirando carne e cerveja apagados em lençóis limpos espalhando aquelas pedrinhas do campo pela casa toda. Sábado era dia de jogo e aqueles sábados talvez não voltem mais, fazem falta, muita falta.