MANIFESTO DA BUNDA CANSADA

Existem coisas que evoluem, existem coisas que regridem. E existem coisas que se mantêm intactas. É o notório caso do papel higiênico. Não que ele não tenha evoluído, o papel ficou mais liso, a textura mais amena e gentil, hoje tem até perfume – lavanda, flores do campo, jasmim, begônia silvestre, escolha o seu. Nossos avôs, esses sim sofriam, lixavam as bundas enquanto você fica limpinho e cheiroso. Se meu avô usasse o papel que eu uso, ia assoviar de felicidade. Se eu usasse o do meu avô, eu urraria de desespero. Viveria com brotoejas permanentes, a famosa bunda empipocada cheia de talco. Porque antigamente criança sempre tinha a bunda empipocada, eu lembro da minha. Hoje eu duvido. É tudo lisinho, sem feridas ou esfoliações. Estamos criando pequenos monstrinhos de bunda lisa mal acostumados e mal preparados para esse mundo cruel. Quando mais cedo sangra a bunda, menor o impacto da decepção.

Quem aí beirando os 35, 40 anos não se lembra daquele papel higiênico rosa? Sim, o papel Primavera. Vinha com essa lengalenga no nome, prometendo flores e te lixava todo, ferrava com o resto do seu dia. Hoje, o lixa-rosa é uma espécie em extinção, recluso a restaurantes de estrada, botecos e pé sujos. É no máximo vintage, daqueles que você encontra na casa de alguém supostamente descolado. Sim, convenhamos que o papel evoluiu. Mas apesar de uma evidente evolução do papel lixa-rosa aos dias de hoje, o papel continua papel, isso nunca mudou. Pode ter mudado muita coisa, mas ainda é papel. Eu queria algo revolucionário. Algo fora da caixa. Até tentaram o bidê, uma invenção equivocada, aquela ducha anal desnecessária. Para aqueles meninos com opções sexuais não ortodoxas, ai sim o bidê funcionava. Não era uma ducha desconfortável, era o chafariz da felicidade, o esguicho das sensações, a cascata da descoberta. Fazia mais do que uma ingênua coceguinha. Até tentaram o chuveirinho, que espirra merda pelos quatro cantos. Bunda limpa e banheiro repleto de coliformes fecais. Quem gosta de chuveirinho, me desculpe, mas teria de ser eliminado desse mundo. Com certeza é o sujeito que caga e adora deixar rastros para os outros limparem. Fora o fato de que o chuveirinho requer uma toalhinha. Quem fica carregando uma toalhinha na mochila ou na bolsa? Ou você tem uma toalhinha na casa da sua mãe, da sua avó, no escritório? Toalhinhas espalhadas pelos seus banheiros favoritos. Chuveirinho só funciona em casa e mesmo assim, com efeitos colaterais. Não resolve o problema.

Mas não estamos aqui para menosprezar o papel higiênico. Eu gosto dele. Ele participou da minha infância, da minha adolescência e participa ativamente da minha vida adulta. Sem o lixa-rosa, não estaria preparado para esse mundo. E só por conta dele, agradeço todos os dias o conforto de um dupla folhas cheiroso e bondoso. Tenho a bunda suficientemente calejada para falar a respeito. E respeitar esse meu amigo, meu companheiro. Ele foi de fato a última grande invenção na higiene pessoal. Mas como todo período pós-revolucionário, vivemos uma estagnação completa, com doses homeopáticas e mentirosas de uma evolução vendida em comerciais.  São como as escovas de dente, que só mudam o design das cerdas.

Fato é que os cientistas anais se cansaram, se acomodaram completamente, só posso concluir isso. Até o surgimento do papel, evoluímos com louvor. Depois dele, pisamos no freio. Porque antes de 1928, amigo, os gregos usavam pedras ou argila. Os romanos, esponjas embebidas em água salgada. Os árabes, a mão esquerda, considerada impura. Outros povos usavam folhas de maçarocas, penas de aves, relva, trapos, cascas de mexilhão, folhas de plantas e por aí vai. No Brasil, as pessoas costumavam fazer a sua limpeza com folhas de alface, água e sabugos de milho. Se hoje estamos com as bundas cansadas de tanto passar papel, o que nos resta é olhar para os primórdios e agradecer pelo papel lixa-rosa. Porque papel Primavera nesse contexto histórico é luxo.

Eu sei que morrerei sem ver tal revolução. Os cientistas migraram para outros mercados, estão pensando no próximo modelo de celular. O que me resta, como para todos nós, é envelhecer usando e abusando do papel até que, gagás, passaremos a usar lencinhos umedecidos. E voltaremos a ser crianças, mas dessa vez com o bumbum liso e cheiroso.

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